sexta-feira, junho 09, 2017

Mulher-Maravilha é o melhor filme no melhor momento!

Resenha do filme do ano, para mim, sem spoilers! Mulher-Maravilha é um filme incrível, intenso e veio em boa hora.



Estava bem ansiosa para o filme da Mulher-Maravilha nos cinemas, desde o seu anúncio, e ainda mais depois da aparição dela no filme "Batman vs Superman". O filme foi tão bem produzido que é difícil estabelecer a causa desse sucesso.

A atuação da atriz israelense Gal Gadot está impecável, o roteiro manteve um ritmo muito bom, sendo muito intenso e extremamente delicado, quando necessário e os efeitos especiais a altura de qualquer super produção de super herói. Aliás, esse é um ponto que eu mais gostei. A cada conflito do filme eu procurava lembrar de como os personagens masculinos eram retratados, como agiam, e Diana, recebeu os mesmos destaques, e talvez até mais.

E o que falar da vilã?

Sim, porque além de uma heroína mulher, sua antagonista é uma mulher, a impressionante Elena Anaya, que interpreta uma química brilhante. Só essa notinha, pra lembrar que as mulheres estão mesmo com tudo nesse filme.


Impossível não mencionar a emoção de ver as mulheres no centro do "universo". 

As amazonas no seu mundo bem estruturado, maduro, forte. As guerreiras poderosas e, acima de tudo, mulheres, vivendo a seu modo. Durante as cenas de treinamento ou de lutas cheguei a arrepiar, de tão real e intenso que foram esses momentos. Vê-las se defendendo, voando pelos céus e organizando-se estrategicamente para derrotar os inimigos foi inexplicável. Acho que só outras mulheres, e ainda mais, as que estão acima dos 30 anos, conseguem perceber a importância e a maravilha dessa produção.

Eu assisti ao seriadinho da Mulher-Maravilha quando era muito criança, não tive o prazer de ler os quadrinhos, então não tive essa influência do meu crescimento. Eu adoro histórias de super heróis, principalmente o Superman e hoje percebo que senti muito mais falta dessa referência do que imaginava. É mágico ter essa representatividade de sucesso. Saí do cinema pensando "Que mulherão da porra" e fiquei imaginando quantas meninas e adolescentes influenciadas por essa onda de consumo desumano vão ter acesso a essa obra e vão sair motivadas pelos conceitos feministas e libertários que a personagem exala.

Voltando às questões do filme, gostei muito de como a história da personagem foi contada. Uma narrativa inevitável, seguida de ação e por fim, outros detalhes sendo explicados em diálogos no seu contato com Steve. O primeiro homem que ela viu na vida. Encontro que gerou um dos momentos mais hilários do filme. Uma conversa meio sem graça em que ela mostra a maturidade feminina de mulher empoderada e conhecedora das (in)habilidades masculinas quanto ao prazer. SENSACIONAL.

Quanto às comparações com a história original da personagem dos quadrinhos. Pelo que li, parece que foi bastante fiel, apesar de algumas perdas terem sido mais precoces e algumas pequenas distorções terem sido feitas. Como por exemplo a motivação para deixar a ilha das amazonas, e onde ela vai "parar" em seguida. Nos quadrinhos ela atua nos EUA, no filme ela está na Europa. Mas, tudo é muito bem justificado e faz muito sentido. A história é coerente e pouco fantástica tanto quanto é possível, considerando que a personagem é uma Deusa (pois é, Deusa, não semi) com ferramentas especiais e super poderes.

Em paralelo a sua chegada a Terra dos Homens, além das discussões feministas inerentes à personagem, a Guerra é muito questionada, as consequências, as motivações, e o AMOR, e a verdade. Sim, porque a nossa guerreira é mulher e tem como missão tornar o mundo melhor acreditando que o amor e a verdade pode fazer isso. E isso fica muito evidente no enredo, e passa uma mensagem muito bonita, nada piegas, e necessária para o nosso tempo.

Se lá em 1941 ela foi ousada, hoje a simbologia em torno da personagem é ainda mais significativa. Já sabemos da nossa capacidade, que podemos, mas pouco avançamos. O machismo ainda impera, ainda há desigualdade, paternalismo, disparidade no reconhecimento profissional, a violência contra a mulher ainda existe - e muito. Ter esse acesso a essa estória pode resgatar essa garra e essa vontade de ser mulher e de querer muito mais.

É claro que tem outros personagens femininos fortes e etc. Mas, nenhum deles tem a força que essa tal mulher maravilha. Espero que ela inspire muitas meninas e que isso acelere as coisas de modo que o mundo fique mais justo, independentemente do gênero. Coisa mais antiga, em pleno 2017 ainda ter que discutir esse assunto. E que momento perfeito para a mensagem vir embrulhada na melhor representante feminina dos quadrinhos.

Entendam que me refiro a grandiosidade, alcance e distribuição comercial que tem a DC Comics e sua personagem. É claro que os quadrinhos estão há muito tempo trazendo grandes personagens, assim como o cinema, mas ela é a primeira, e na minha opinião a mais bem concebida, com fundamento, princípios e objetivos.

Quem ainda não assistiu, vá! Se não encontrar nada do que eu disse aqui sobre feminismo e etc, pelo menos terão uma ótima experiência em entretenimento.

E que venha o filme da Liga da Justiça. Com Superman e a Wonder Woman!


Assista ao trailer oficial da Mulher-Maravilha.




Trailer da Liga da Justiça 2017, que estreia em novembro.




=P

quinta-feira, junho 01, 2017

Resenha: Caixa de Pássaros, por Josh Malermann

Aprendi uma nova lição com esse livro. Todo mundo sabe que não se deve julgar um livro pela capa. Pois, aprendi que também não se deve julgar um livro pelo que falam dele!

Depois que li a sinopse do "Caixa de Pássaros" fiquei bem interessada em comprá-lo. Sempre que alguém publicada alguma resenha eu dava uma lida por cima, para tentar evitar spoilers. E li algumas que quase me desanimaram. Muitas pessoas elogiavam o enredo, mas consideravam o final decepcionante, ou no mínimo "que deixa a desejar". Apesar disso, não pensei duas vezes quando o vi numa promoção da Amazon e comprei.

E já digo agora: valeu cada centavo, o livro é muito bom. Não deixem de ler se tiverem a oportunidade. Link para comprar na Amazon aqui.



Resenha: Caixa de Pássaros, por Josh Malermann

Comecei a ler sem muita expectativa, ignorei inclusive os elogios tecidos na capa, que comparavam a genialidade de Malermann com a de Stephen King. Não é bem isso, mas fala que quem gosta de Stephen, pode vir a gostar de "Caixa de pássaros". Eu ainda não li Stephen King, e esse foi meu primeiro livro de suspense/terror. Então, tudo foi novo nessa experiência.

A história tem um narrador à parte dos fatos, como se estivesse assistindo ao que acontece. Ele vai descrevendo tudo nas cenas, e a forma como o faz, gera ansiedade. Frases curtas. Pontos e novos parágrafos, repetições, que vão te enchendo de expectativa e te fazendo vivenciar o que se passa com os personagens. Por vezes, a narrativa passa para Malorie, personagem principal, e temos acesso aos seus pensamentos, sua visão sobre o que se passa, e quase enlouquecemos junto com ela. Achei isso genial.

Malorie está saindo de casa e pegando o rio com seus dois filhos, uma menina e um menino, ambos com 4 anos de idade. Os três estão vendados e ela repete o tempo todo para eles não tirarem a venda em hipótese alguma. É assim que somos apresentados a personagem e a essa história. Além do esquisito, por que uma pessoa tem que sair de casa e descer o rio vendada?, bate aquela curiosidade de saber como eles chegaram a esse ponto.

Os capítulos vão sendo intercalados entre a aventura da mãe com seus filhos no rio e flashbacks do que aconteceu até que eles chegassem ali. Seja no presente ou no passado, tudo é surpreendente e fiquei vidrada na história querendo saber o que acontecia em ambas as situações. Suspense puro, um toque leve de terror, e uma narrativa que te prende do início ao fim.

Eu leio nos ônibus ao me deslocar durante o dia. A cada vez que precisava interromper a leitura, ficava pensando sobre o que estava acontecendo naquele universo, e pensando como eu reagiria no lugar de Malorie. Imaginava como seria viver nesse mundo, em que não se pode mais usar a visão. Ou seja, era uma imersão total na estória, e até agora não sei ao certo que estratégia maravilhosa é essa que o autor usou. 

Enquanto lia Caixa de Pássaros foi inevitável comparar com outras histórias de certo modo semelhantes. Como em "Ensaios sobre a cegueira", de Saramago, em que as pessoas precisam se adaptar ao mundo novo, em que todo mundo é cego. O caos que se instala é parecido, mas a ameaça vem dos mais adaptados e não do desconhecido como em Caixa de Pássaros. Também me fez lembrar de "The walking dead", afinal as pessoas acabam se isolando, sem saber quem ainda vive nesse novo mundo. Mas, em "The walking dead" eles podem ver e fugir do "zumbi", que é a ameaça que muda a existência na Terra.

O mundo em Caixa de Pássaros é apocalíptico, fim do mundo como o conhecemos por razões bem atípicas e desconhecidas. Por isso, mais do que uma aventura e um suspense, a obra suscita algo do comportamento humano. Como cada pessoa reage diante do inesperado, provavelmente sobrenatural? A loucura, o ceticismo, a inovação, a liderança, a capacidade de se relacionar com outras pessoas, a bondade, a maldade, a solidariedade, tudo é colocado a prova em cada um dos personagens. E vamos nos identificando com uns, odiando outros, compreendendo a todos.

Assim como em "The walking dead" e em "Ensaios sobre a cegueira", em "Caixa de pássaros" as pessoas também chegam no limite paranoico de temer perder o pouco que tem: a comida escassa, o abrigo, a pouca segurança conquistada. É quando os conflitos começam, onde seus limites "humanos" são colocados a prova. Todas essas histórias fala sobre sobreviver em um mundo hostil, complicado. Mas, só em "Caixa de pássaros" tem um medo do desconhecido.

Os personagens questionam o tempo todo o que pode ser, o que de fato causa e o que quer causar as pessoas. Para alguns a ameaça não passa do uso do medo e paranoia do próprio ser humano contra ele mesmo. A verdade é que tentar descobrir é arriscado, e com medo, muitos enlouquecem. E nós, lendo essa história, vamos ficando com as mesmas dúvidas e tentando desvendar o mistério.

E no fim, que para alguns foi decepcionante, eu me emocionei. Não posso falar nada que comprometa a história. O que posso dizer é que entendi que o livro se trata de uma mulher, uma sobrevivente, descendo o rio com os filhos em busca de salvação (ou algo do tipo), como os sobreviventes de "The walking dead" procurando um lugar melhor, quando saem de Atlanta e vão para Washington. Aceitando isso, o final fica coerente e muito bom.

O alívio depois do ápice tenso e triste, a alegria das crianças e da Malorie com o momento família que acontece ali, pequeno, singelo, mas tão representativo. Acho que o autor foi sábio e fechou a história da melhor maneira possível.


>>>POTENCIAL SPOILER<<<<
Tentar explicar algo tão misterioso poderia, daí sim, acabar com o livro e dar desgosto pela leitura feita até ali. Só acho. 

=P

segunda-feira, maio 29, 2017

Resenha de Terra Sonâmbula, por Mia Couto

E, finalmente, saiu a resenha de "Terra Sonâmbula" do autor moçambicano Mia Couto. Precisei de um pouco mais de tempo para escrevê-la, para ser mais justa acerca da minha opinião sobre a obra. E já já vocês entenderão o porquê.

A África é um continente muito distante para mim. Por mais que se ouça falar de lá em diversas narrativas, principalmente jornalísticas, nada se compara a proximidade de acompanhar a vida de um personagem em uma obra literária. E eu confesso que não estava muito preparada para esse choque de realidade. Imaginei que o livro tratasse de algo mais lúdico, como no primeiro livro em que tive contato com a obra de Mia Couto, "Antes de nascer o mundo".


Sinopse de Terra Sonâmbula

Um ônibus incendiado em uma estrada poeirenta serve de abrigo ao velho Tuahir e ao menino Muidinga, em fuga da guerra civil devastadora que grassa por toda parte em Moçambique. Depois de dez anos de guerra anticolonial (1965- 1975), o país do sudeste africano viu-se às voltas com um longo e sangrento conflito interno que se estendeu de 1976 a 1992. O veículo está cheio de corpos carbonizados. Mas há também um outro corpo à beira da estrada, junto a uma mala que abriga os 'cadernos de Kindzu', o longo diário do morto em questão. A partir daí, duas histórias são narradas paralelamente - a viagem de Tuahir e Muidinga e, em flashback, o percurso de Kindzu em busca dos naparamas, guerreiros tradicionais, abençoados pelos feiticeiros, que são, aos olhos do garoto, a única esperança contra os senhores da guerra.


Resenha de Terra Sonâmbula, por Mia Couto

Terminei de ler o livro há mais de uma semana, e só agora resolvi escrever sobre ele para não descarregar toda a negatividade que senti ao terminar a obra. Precisava assentar as ideias, pensar melhor sobre tudo que li antes de comentá-lo. Terra Sonâmbula é uma leitura densa, por vezes difícil, devido a linguagem usada pelo autor e também pelos sentimentos que ela suscita.

Quando li a sinopse, não poderia imaginar o conteúdo do livro. Não que ela não seja verdadeira, na verdade a história é exatamente isso. Mas, não esperava me deparar com tamanho realismo. E muito menos um realismo tão surreal. Isso porque, por vezes, a impressão que se tem é que aquilo não pode ser verdade. Ao mesmo tempo, devido ao conhecimento superficial que tenho das culturas dos povos que vivem na áfrica, via aquilo como absoluta verdade. Às vezes, comparava as crendices populares absurdas com o que ouvimos por aqui de pessoas antigas, ou do que se ouve da cultura nordestina, e acreditava em cada palavra como se o livro fosse sobre fatos reais.

Acreditar que um personagem é real normalmente é fantástico durante uma leitura. Mas, quando a vida desses personagens é mais triste do que eles percebem, pode ser devastadora para o leitor. E foi assim que os capítulos das histórias de Kindzu e de Muindinga foram me afetando. Quando terminei de ler o livro, escrevi no Instagram que não recomendaria para ninguém. É muita tortura psicológica, eu pensei.

Por outro lado, a narrativa é lírica, a linguagem nos insere naquele universo, apresenta-nos um povo, suas culturas, e isso é muito positivo. Demonstra a qualidade das obras de Mia Couto. Aquelas palavras truncadas, o choque do português moçambicano com o nosso, que eu sequer sei se é assim, ou se foi apenas um estilo adotado pelo autor, para retratar um passado recente. Seja como for, cumpre o papel de transmitir sentimentos, de provocar reflexão, de pensar sobre como essas pessoas vivem. Em um continente distante, quase sem atenção, com guerras e vivendo em um mundo que a gente nem poderia imaginar.

Alguns relatos da história eu já tinha visto no documentário "O sal da Terra", de Sebastião Salgado (tem na Netflix e recomendo). Por isso ler sobre a história de Muindinga me pareceu tão real. Além disso, a fome e as desgraças que as pessoas passam em períodos de guerras. E aquela sensação horrível de nascer e morrer em tempos assim. A descrença de que exista um mundo que não seja assim. Conseguem entender? É um livro que suscita a tristeza. Faz refletir, coloca o assunto em pauta, mas nos deixa triste.

E eu fiquei duplamente triste porque adoro o autor, o seu jeito de escrever, sua sensibilidade, mas neste caso, ainda sinto que não deveria indicar a leitura. Parece que ao fazer isso estaria entregando um fardo para outra pessoa carregar.

Mas, para leitores experientes, que já leem de tudo, que gostam de Saramago, desesperanças, realidade nua e crua, e que aprecie um bom texto. Para eles, indico a leitura do livro. Porque, trata-se de um ótimo livro, apesar de tudo.

Para comprar, tem no site da Amazon em eBook ou capa comum bem barato. É um livro de bolso, curtinho. Dá pra ler "numa sentada". E para ver outras obras do Mia Couto clique aqui.

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