sexta-feira, agosto 13, 2021

Resenha | Onde Kombi alguma jamais esteve, de Gilson Cunha

Uma das coisas mais legais da vida de leitora é descobrir novos universos onde se perder. E é assim que Gilson Cunha e o seu livro "Onde kombi alguma jamais esteve" entra pra minha história. 




No final de março de 2020, o livro esteve gratuito ( eu já tinha ouvido falar dele antes, e fiquei na vontade) mas, dessa vez resolvi espiar pra ver do que se tratava. E o que era pra ser só uma espiada, virou uma leitura alucinada. Gilson despertou meu interesse da capa à última linha dessa história!


O que você encontra em "Onde kombi alguma jamais esteve?"

Quando o título diz que a Cremilda, a Kombi, esteve onde nenhuma outra ousou sonhar em ir, é porque ela foi turbinada. Ganhou uma inteligência artificial e a capacidade de viajar no tempo, espaço e no não-tempo. Qual leitor de Sci-fi não fica empolgado com uma promessa dessas?




Se até aqui a história já tinha conquistado a minha atenção, imagina quando conheci o cara que dirige essa Kombi, o Alfredo, Alfredão para os íntimos! Um personagem marcante, louco, cativante, apesar de bizarro. Pra mim, Alfredão é uma mistura de Doctor (Who), Arthur Dent (não vou explicar quem é) e o tiozão que todo mundo tem. Desagradável, mas querido ao mesmo tempo. 

A narrativa é divertida, com pontos de crítica e ironia inacreditáveis, e seriedade. São nesses momentos que o protagonista mostra o seu grande coração e sabedoria, adquirida nos seus mais de 2 mil anos. Pois é, o homem foi modificado (geneticamente?) e recebeu alguns apetrechos transhumanistas numa situação muito inusitada, assim como a sua Kombi, a Cremilda.

O enredo é muito bem amarrado. Além das idas e vindas no tempo, tem muitos elementos sci-fi e é recheado de referências da cultura nerd/geek e pop. Gilson é um aficcionado por nerdices e afins, praticamente uma enciclopédia ambulante para essas questões. E neste livro, usou muito desse conhecimento para tornar a trama mais interessante e divertida.



Vale dizer que o estilo de escrita dele e o "tom" de "Onde kombi alguma jamais esteve" me lembrou muito o do Douglas Adams, e o "O Guia do Mochileiro das galáxias". Isso já explicaria por que fiquei tão impressionada. O autor soube trazer essa técnica doida para a realidade brasileira, culturalmente falando, com regionalismo bem dosado. Incrível!

E eu não vou dar a sinopse, porque nada que eu diga aqui vai dar a noção real do que é esse livro. Peço apenas que confiem na minha palavra e leiam

É mais um sci-fi perfeito para a literatura brasileira contemporânea e eu só tenho a agradecer a quem me indicou essa leitura (e se não cito nomes é porque não me lembro mesmo!).

E para quem ler e gostar de "Onde kombi alguma jamais esteve", saiba que o autor está escrevendo prequel e já tem em mente uma continuação. Além disso, histórias paralelas dos personagens aparecem em outros contos já publicados. 

Vou deixar o link para alguns deles que podem ser comprados na Amazon a seguir.




Gilson Cunha é Escritor Saifers BR


Já falei aqui em outra oportunidade (A Ficção Científica Brasileira está de cara nova!) sobre este grupo de escritores e leitores unidos pelo amor ao sci-fi. Para saber mais sobre a iniciativa Saifers BR, acesse o site oficial clicando aqui.

Gilson Cunha é biólogo, doutor em genética e biologia molecular pela UFGRS, além de escritor, ele também tem alguns canais de entretenimento. No Instagram e no Youtube, com o canal Café Neutrino. No canal ele desvenda algumas curiosidades científicas, fala de sci-fi e faz passeios aos sebos num quadro muito divertido. 

Vale a pena conferir!

quinta-feira, agosto 12, 2021

Resenha | Forrest Gump, Winston Groom

 Esqueça o filme, leia o livro "Forrest Gump", de Winston Groom. Não estou aqui afirmando que o filme é um lixo, só que você deve esquecer o filme e ler o livro com a mente aberta para conhecer essa história como o autor quis nos contar.



Esta é mais uma daquelas histórias que foram distorcidas a ponto de se perder na adaptação. Forrest Gump não é sobre o patriotismo bobo estadunidense, nem sobre um idiota ingênuo e fofinho, nem sobre o "sonho americano". 

Você vai ficar pasmo ao saber que não existe o banquinho, o "corra, Forrest, corra", nem a pena voando que conduz toda a história, dentre outras coisas. O filme tem, apesar da mensagem distorcida, um tom poético, uma estética interessante. Mas, voltemos ao livro!

A história é construída entorno de um cara que aceita o título de "idiota" por "maioria de votos" e passa a vida sendo humilde e guardando pra si a sua visão perspicaz sobre o mundo e as pessoas que o rodeia. E o cara tem ideias que fazem TODO sentido, expondo como o mundo é estranho e as pessoas, no mínimo, maldosas e hipócritas.


Forrest Gump, o livro

No livro, assim como no filme "Forrest Gump", acompanhamos um desfile de situações absurdas. Algumas chegam a ser engraçadas, mas a maioria provoca reflexões sobre a vida e as relações humanas. Tal qual ao filme. A diferença, é que no livro a mensagem é outra. 

Para o leitor, fica a pergunta constante, incomodando "quem é o idiota afinal?"

Gump se envolve com diversas instituições estadunidense, como a Nasa, o exército, a escola, o governo, desmascarando-as. Uma crítica ferrenha a todas elas.

Houve um tempo em que achei o filme muito bom, mas "Forrest Gump" é bom mesmo no livro. Salta aos olhos as diferenças dos personagens no livro, em relação ao filme, evidenciando a mensagem tosca, desconstruindo toda a crítica que encontramos no livro.

Essa é uma resenha do livro, por isso digo mais nada sobre filme... Quem ainda não leu, recomendo! É uma história cativante, interessante e divertida, com altas doses de ironia.




Edição de 30 anos de Forrest Gump

E essa edição especial de aniversário da Aleph está incrível! Ainda que toda a ideia remeta ao filme, grande jogada de marketing, foi ilustrada pelo Rafael Coutinho. 

A tradução, feita pela Aline Storto Pereira é brilhante. Forrest tem um jeito peculiar de falar e as escolhas dela para nos transmitir essa ideia foi genial. A narrativa ficou perfeita, parece que Forrest está no nosso ouvido contando a história. 

No final do livro, tem um artigo da professora Isabelle Roblin: Da página à tela, a reformulação de Forrest Gump. Nele é analisada a adaptação feita para o filme, traçando um paralelo em relação ao livro e apontando as diferenças. Um texto de apoio esclarecedor, digno de um livraço como este do Winston Groom.


Abaixo tem o link para ver o livro Forrest Gump, de Winston Groom na Amazon. 



Sinopse da Aleph


Essa é uma edição comemorativa de 30 anos de Forrest Gump, a indispensável obra de Winston Groom que inspirou o clássico do cinema estrelado por Tom Hanks. A obra de Winston Groom é bastante diferente do versão dos cinemas, com um texto mais polêmico, cenas de sexo e linguagem mais pesada. Entre os extras dessa edição estão: treze ilustrações internas, criadas pelo ilustrador, pintor e animador brasileiro Rafael Coutinho, que se considera um grande fã da obra e um ensaio comparando o livro à sua adaptação cinematográfica, feito pela francesa Isabelle Roblin - professora da Université du Littoral Côte d'Opale. A edição especial vem com duas ilustrações de capa em uma só jaqueta, impressa em ambos os lados, o que permite ao leitor escolher o seu design favorito. O design da capa é de Pedro Inoue.


Sobre o Autor


Winston Groom nasceu nos Estados Unidos, em 1943. Após servir o exército e até lutar no Vietnã, trabalhou como repórter em Washington. Escreveu 16 livros, inclusive Forrest Gump, Forrest and Co., Patriotic Fire, Shrouds of Glory e Conversations with the Enemy (com Duncan Spencer), finalista do prêmio Pulitzer. Atualmente mora com a esposa e a filha em Point Clear, no Alabama.

quarta-feira, agosto 11, 2021

Transferência mental ou backup do cérebro é possível?

Será que é possível fazer a transferência da nossa mente para uma pendrive? Pode não parecer, mas fazer um backup do cérebro pode ter muitas aplicações interessantes!



Os robôs já não interessam tanto a ficção como antigamente. O transhumanismo invadiu a ficção e vem ganhando cada vez mais espaço em séries, filmes e livros. Para quem não está familiarizado com o termo, trata-se de, em linhas gerais, integrar o corpo humano com tecnologias que aprimorem nossas capacidades físicas ou intelectuais.

Se pararmos para pensar, já vivemos um grau "steampunk" de transhumanismo, com os avanços tecnológicos para dar mais qualidade de vida a pessoas com deficiência, mesmo as mais leves como uma miopia. Óculos e lentes de contato, próteses e pinos para corrigir fraturas são ótimos exemplos disso.

Mas, sem dúvida, a possibilidade de ampliarmos a nossa capacidade intelectual é muito desejada. Talvez até mais do que uma tecnologia que nos deixe fortes, resistentes ou imbatíveis fisicamente. Ter memória sem limites, capacidade de aprendizado... transferir a mente para uma máquina definitivamente nos daria muitas vantagens.

A tecnologia é "necessária" para atender a situações como armazenamento de memória em tempo real ou não, para integrar outro corpo, gerar ambiente virtual para quem tem limitações físicas, mais algumas que devo ter esquecido... Para todas elas, antes precisaríamos de um backup do cérebro

O passo seguinte seria reproduzir os dados de forma a simular o modo de pensar e a consciência fora do corpo, em ambiente digital. Esse processo é importante para que se aprenda como o cérebro funciona, como ele pensa, grava e recupera informações.

Outro sonho de alguns (malucos, eu diria), é a vida eterna, seria a imortalidade possível? Com esse corpinho orgânico que a natureza nos deu, fica realmente difícil. Ele é limitado demais para os planos de viver para sempre e poucos avanços científicos em estudo hoje nos permitiria isso. Mas, com a consciência salva dentro de um chip, com a capacidade de operar de dentro de um computador, corpo robótico, ou atuar "da nuvem", poderíamos viver para sempre, já imaginou? (que pesadelo!)

Bem, muitos autores têm imaginado isso, e já li alguns livros sobre este assunto, então fui buscar algumas informações "do mundo real" sobre o que já se estudou e ainda se pesquisa para evoluir essa ideia futurista de transferir a mente para um chip ou fazer backup do cérebro.


É possível fazer um backup do cérebro?


E, pasme! Tem alguns estudos bem consistentes nessa área. Uma matéria que aborda em detalhes esta questão é  a "É possível fazer um 'back up' do cérebro?" publicada pela BBC. 

O artigo começa abordando as possibilidades tecnológicas existentes. Algumas empresas já vêm trabalhando no armazenamento da "vida digital" das pessoas e disponibilizando-as em forma de "time line". Assim, é possível acessar emails, tweets (MEDO!), dados do Facebook e o que mais a pessoa cadastrada tiver compartilhado na rede. 

Serve basicamente para as pessoas relembrarem a vida da outra após a morte. Eu fiquei pensando aqui no que teria no meu arquivo se morresse hoje...


Então, assim, não vejo muito sentido, e me preocupo com os conteúdos dos últimos emails que troquei, o que andei recebendo. Imaginem se aquele spam que a gente recebe sempre, nada a ver, daqui há uns 10 anos, pareça que ter sido relevante porque não o deletamos? Alguém pode achar que eu realmente precisava renegociar minhas dívidas.

Enfim... Voltando ao assunto, já que o caso anterior se referia ao salvamento de memórias, e não da transferência da mente para o meio digital, a matéria da BBC cita alguns estudos interessantes.


Pesquisas na área de transferência ou cópia do cérebro para o meio digital


Assim descobri que na Inglaterra tem um Instituto Futuro da Humanidade (The Future of Humanity Institute, Oxford University), que tem pesquisado como recuperar os dados do cérebro e reproduzir o seu funcionamento fora do corpo.  Primeiro eles imaginam pegar esses dados para desenvolver modelos para que então seja feito um simulador. Algumas partes já foram escaneadas nesse Instituto, pelo pesquisador Anders Sandberg

Ele tem muitos artigos na área de computação e inteligência artificial, esteve em várias conferências militares, inclusive. 

Aliás, não citei antes porque estou falando sobre migrar a mente humana para o computador. Mas, uma das vantagens de se desenvolver a tecnologia que permita o upload do cérebro é entender como ele funciona. A partir desse conhecimento, seria possível (acredita-se) desenvolver inteligências artificiais que possam de verdade dominar o mundo

Vale lembrar que as inteligências artificiais desenvolvidas até então estão "presas" na programação em que foram desenvolvidas. Para que elas possam pensar por elas mesmas, aprender e se transformar, precisariam de mais do que um raciocínio lógico baseado em "IFs" e "ELSEs". Questão: Será o cérebro positrônico dos robôs de Asimov fruto do entendimento do cérebro humano após uma transferência mental? Papo para outro post! 




O Google, é claro, tem um projeto Google Brain (tem artigos e mais informações no Google Research), que tenta simular aspectos do cérebro humano. Um dos desafios que estão tentando superar é entender os circuitos por meio dos quais a mente humana pensa e lembra.

Na Rússia, Dmitry Itskov, fundou um projeto batizado de "A Iniciativa 2045" (site oficial 2045.com). O nome se baseia em uma previsão, feita por Kurzweil, de que em 2045 seremos capazes de fazer um back up de nossas mentes na nuvem. O empresário, ricaço, visa a imortalidade. Não divulgou dados das pesquisas, mas parece que tem investido mesmo no projeto sob o comando de Randal Koene, diretor de ciência da "Iniciativa 2045".


Pensa na ciência envolvida para simular o cérebro humano! 


Além de conseguir copiar o cérebro, entender como tecido orgânico pensa, organiza ideias, gerencia memórias, reproduzir isso numa cópia digital é ainda mais "absurdo". O que nos indica que há muita pesquisa séria sendo desenvolvida.

Os pesquisadores da área da computação tentam entender o funcionamento do cérebro usando que conhecem: a informática. Imagina o índice do cérebro para as coisas que vimos, ouvimos e experimentamos ao longo da vida! Todo o nosso raciocínio está associado às memórias, o cérebro vai fazendo associações. E esse é o motivo pelo qual é essencial fazer uma cópia completa. Foi o que disse o pesquisador Anders Sandberg, de Oxford, na matéria da BBC.

Outra afirmação preocupante, é que provavelmente essa "cópia do cérebro" talvez não seja possível sem destruí-lo. E aí, questões éticas entram em cena, sem contar que o número de voluntários vai ser bem restrito. Imagine a promoção: Frite seu cérebro, mas ganhe a possibilidade de viver para sempre, digitalmente! (OK! Não teve graça!)




Digamos que tudo isso funcione, qual a máquina, os chips, a tecnologia envolvida para que tudo funcione perfeitamente? Já tem alguns estudos, um deles apoiado na Lei de Moore, que especulou tudo que seria preciso em termos de hardware e outras coisinhas. Para quem sabe ler inglês e se interessa pelo tema, clique aqui


Viabilidade técnica "ok", e agora?


E até aqui falei só da viabilidade técnica. Já imaginou se eles conseguem realizar esse projeto? O cérebro "desperta", é digital, está num computador, numa rede? Como é isso? Não ter um corpo? Boa parte do que somos está ligado aos nossos sentidos, é como percebemos o mundo, não é? Essa cópia é "a pessoa", é outra? Que direitos ela tem? 

Não faço ideia de como responder a essas perguntas, mas pensar sobre elas é muito interessante. E, estejam certos, tem muitos neurocientistas envolvidos nessas pesquisas e, caso cheguem a obter sucesso, muitos outros pesquisadores e legisladores terão de entrar em ação. 


Livros sobre transferência mental e/ou backup do cérebro


Na ficção, não pensem que esqueci dos livros, tem muitas histórias especulando essa coisa toda de transferência mental. 

Vou citar aqui os que têm a trama mais relacionada com essa questão do backup ou transferência da mente que já li e são meus favoritos. Basta clicar nas imagens para acessar a página, ver a sinopse e etc.

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