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terça-feira, junho 04, 2024

Resenha | O Diário de Anne Frank

"O Diário de Anne Frank" é um dos livros mais vendidos na Amazon e tem inúmeras edições. Os leitores parecem nunca se cansar dele. Você sabe por quê?


Resenha de "O Diário de Anne Frank" 

"O Diário de Anne Frank" traz o relato profundamente comovente e significativo da vida de uma jovem judia durante a Segunda Guerra Mundial. Escrito por Anne Frank enquanto ela e sua família se escondiam dos na$istas em Amsterdã, este diário oferece uma visão íntima e impactante das dificuldades enfrentadas durante aquele período sombrio.

Desde o início, o leitor é atraído pela escrita clara e sincera de Anne. Suas entradas no diário capturam o cotidiano no anexo secreto, onde a família Frank, juntamente com mais quatro pessoas, viveu escondida por mais de dois anos. Anne descreve com detalhes vívidos o medo constante da descoberta, as tensões do confinamento e os pequenos momentos de alegria que iluminavam suas vidas.

O que se destaca no diário é a maturidade e a profundidade dos pensamentos de Anne, especialmente considerando sua idade. Ela reflete sobre temas complexos como a natureza humana, a injustiça e a esperança. Seus escritos mostram uma jovem cheia de vida e curiosidade, que sonhava em ser escritora e fazer a diferença no mundo.

Um dos aspectos mais emocionantes do livro é a esperança inabalável de Anne. Mesmo enfrentando circunstâncias extremamente difíceis, ela manteve a fé na bondade das pessoas e sonhava com um futuro melhor. Esta esperança ressoante é um dos pontos mais poderosos do diário, que muitos interpretam como uma lição sobre resiliência e otimismo em tempos de adversidade.

A descoberta e a prisão dos habitantes do anexo secreto são descritas com uma precisão que deixa o leitor com um nó na garganta. O final trágico da obra, sublinha a brutalidade do Holocausto e a perda irreparável de tantas vidas jovens e promissoras.

"O Diário de Anne Frank" não é apenas um documento histórico, mas também uma obra literária de grande valor. A Casa de Anne Frank em Amsterdã, hoje um museu, serve como um lembrete duradouro da sua história e da importância de lembrar o passado para não repetir os mesmos erros no futuro. Um clichê, é verdade, mas ainda muito necessário nos dias de hoje.

Em resumo, "O Diário de Anne Frank" é uma leitura essencial que combina um relato pessoal íntimo com uma poderosa mensagem sobre a resiliência do espírito humano. É um testemunho atemporal da coragem de uma jovem garota e da necessidade de lutar contra a intolerância e a injustiça em todas as suas formas.



Contexto histórico e um pouco mais sobre Anne Frank

Anne Frank nasceu em 12 de junho de 1929, em Frankfurt, Alemanha. Sua família mudou-se para Amsterdã, na Holanda, em 1933 para escapar da perseguição nazista. Em 1942, a família Frank foi forçada a se esconder devido à intensificação da perseguição aos judeus.

Anne começou a escrever seu diário pouco antes de se esconder. Ela o recebeu como presente de aniversário em 1942 e nomeou-o "Kitty". No diário, Anne relatou a vida no esconderijo, suas reflexões pessoais, seus medos, esperanças e os desafios de viver em confinamento. Ela também expressou suas aspirações de ser escritora.

Após a guerra, Otto Frank retornou a Amsterdã e encontrou o diário de Anne preservado por Miep Gies, uma das pessoas que ajudaram a família a se esconder. Otto decidiu publicar o diário de sua filha para compartilhar sua história com o mundo. O livro foi publicado pela primeira vez em 1947, sob o título "Het Achterhuis" (O Anexo Secreto). Desde então, foi traduzido para muitos idiomas e é considerado um dos relatos mais importantes e comoventes do Holocausto.


Veja algumas opções de compra na Amazon:

sexta-feira, outubro 27, 2023

Resenha: Prelúdio à Fundação de Isaac Asimov

“Prelúdio à Fundação” é o primeiro livro da saga Fundação, para quem optar por ler essa série pela ordem cronológica. Ele não é o primeiro livro escrito neste universo. Asimov começou com a trilogia da Fundação, e depois escreveu prequels e sequels (ou seja: livros que contam histórias antes e depois da trilogia).



A história da Fundação é bem interessante. A trilogia principal, que é a mais conhecida, premiada e etc, iniciou como contos publicados numa revista de Ficção Científica dos Estados Unidos. O sucesso desses contos foi tão grande, que o agente do autor resolveu reuní-los nesses três livros: Fundação, Fundação e Império e A Segunda Fundação, os quais formam a trilogia.


Quem chega desavisado na obra do Asimov, geralmente lê a trilogia primeiro. As reações comuns são: estranheza, porque parecem histórias desconectadas a princípio, sente-se falta de um background, muitos amam e outros detestam. Talvez pela controvérsia, pela oportunidade de ganhar mais, ou porque o universo é rico demais e os personagens poderiam estar atormentando o autor… Ele então escreveu esses livros que completam e aprofundam a história contada nos contos da trilogia.


E eu, que tinha começado a ler errado essa saga, e não tinha gostado muito, achei fantástico e adorável da parte dele ter escrito esses outros livros. Isso porque “Prelúdio à Fundação” não só aprofunda e complementa esse universo, como traz uma história muito mais interessante. Asimov está mais maduro e experiente quando o escreve, o que resultou num trabalho belíssimo.


O autor aproveita esses novos capítulos, inclusive, para conectar a saga dos robôs à da Fundação. E esse foi o segundo motivo pelo qual a decisão foi muito acertada. Essa conexão entre as histórias foi feita de forma magistral, o que enriquece ainda mais tanto uma quanto outra saga.


Prelúdio à Fundação tem, portanto, o papel de conectar as sagas e aprofundar o momento político do império em que Hari Seldon, o grande salvador das histórias na trilogia, seja apresentado de forma mais apropriada. Conhecemos toda a sua história, desde a chegada a Trantor, como ele chegou aos poderosos que deram crédito e espaço para que ele construísse o seu plano para salvar o império.


Obviamente não posso dar detalhes sobre como isso foi feito, porque daria spoilers muito indesejados. O que posso dizer a vocês é: leia Isaac Asimov na ordem indicada neste outro post: Guia de leitura para ler Isaac Asimov.



Eu já li do jeito errado, estou relendo na ordem certa e faz muita diferença.

Outra dica, se me permitem, não dê intervalos muito longos entre um livro e outro, principalmente se você for esquecida como eu. Fica muito melhor se a gente tem toda a história prévia fresquinha na memória.


Asimov é perfeito e sempre nos ajuda a lembrar, dando o contexto, relembrando personagens, mas mesmo assim, o texto é tão sutil, cheio de detalhes, que vai ser bem melhor ler quase que direto todos os livros. É uma jornada longa, mas muito prazerosa. Ler essa saga é ter contato com o que de melhor já se escreveu nos tempos áureos da ficção científica.





quinta-feira, fevereiro 16, 2023

Resenha | Eu sou a lenda, de Richard Metheson

"Esqueça o filme, leia o livro" se encaixa perfeitamente para "Eu sou a lenda", de Richard Metheson. Coincidência ou não, o filme é estrelado pelo Will Smith, mesmo caso de “Eu, robô”, de Isaac Asimov, sobre o qual já falei aqui em outra oportunidade.




Para a turma do “deixa disso, não se compara, são mídias, formatos diferentes, adaptações têm suas ressalvas’… É! Mas esta é a minha opinião sobre a história que foi desconstruída no filme, que é o que a maioria conhece e, como ele é meio bosta, acaba desmotivando as pessoas a lerem o livro. 


O que eu quero nesse post é que você, tendo gostado ou não do filme, esqueça ele e vá ler o livro, porque é uma obra impressionante.



Breve sinopse de “Eu sou a lenda”, de Richard Metheson


Robert, é o último humano, estadunidense, num mundo pós apocalíptico misterioso (não é “bem” sobre zumbis! Aliás, como a maioria das estórias de zumbis.), em que humanos foram dizimados por uma doença que parece ter vindo com tempestades de areia.



Resenha de “Eu sou a lenda”


Como toda narrativa bem construída, "Eu sou a lenda" abre margem para diferentes interpretações e isso foi uma das coisas que me fez amar essa leitura.


Sozinho, Robert tenta manter a sua humanidade. A gente sabe, ainda mais pós pandemia, como estar isolado por tanto tempo pode ser prejudicial para os seres humanos. Mas, será que essa história é sobre o isolamento e solidão?


Nos extras dessa edição (que recomendo muito), uma das especulações feitas é a de que o livro discute a segregação racial, sendo Robert o último branco. Faz sentido nos EUA dos anos 1950. Só que esse período tem um inimigo mais forte, o comunismo. 👀


A guerra fria, a Rússia, me parece uma influência de medo muito maior no autor, que chega a citar a bomba atômica como possível causa da praga. Nos pós créditos dessa edição da Aleph, há uma comparação entre os “seres infectados” e uma possível “invasão” de pessoas negras nos Estados Unidos, marcando o racismo daqueles tempos. 



Teorias que fervilharam na minha mente com essa leitura


Faz sentido, mas eu fiquei com outras ideias enquanto lia. E essa é a beleza de um bom livro, ele pode ser ressignificado a qualquer tempo, por qualquer leitora. Pensa comigo: uma análise dessa obra nos dias de hoje, por uma não estadunidense, quem sabe mais sensata?, não poderia ver o quadro desse outro ângulo:


“Eu sou a lenda” como metáfora para o avanço do capitalismo, a devastação do mundo, o ser humano escravo de um vírus que o torna uma ameaça aos demais da própria espécie. Devorando uns aos outros até se conformar numa forma social violenta que exclui os diferentes? Numa luta cruel e inescrupulosa contra os que tentam resistir a sua hegemonia? Morte aos comunistas!


De onde tirei isso? Isolado, Robert pode representar aqueles que não concordam com essa nova forma de vida. O último daqueles que não se encaixa. O fio de esperança contra essa praga que acaba com o planeta e precisa ser exterminado. Ainda mais se considerarmos o final, que não vou entregar, é claro.


É claro que essa interpretação também pode ser exatamente o contrário, mas eu gosto mais da que eu inventei! Rhá!


Para além dessas viagens, como todo bom Sci-fi, "Eu sou a lenda" tem camadas bem desenvolvidas, com ação, drama e uma discussão forte e muito boa sobre "ser humano" e a solidão. Sim, o livro aborda muito bem essa questão e dá aquele sofrimento bom que alguns leitores tanto buscam.


PS: Esqueça a cena do cachorro do filme! No livro tem um cachorro, mas a situação é muito mais terrível para o humano, não é daquele jeito tosco da adaptação.


Enfim… recomendo demais essa leitura para quem gosta de uma história que faz refletir e entrete.





quinta-feira, setembro 16, 2021

Resenha | 4321, por Paul Auster

Surpreendente, inusitado, perfeito... Ou seja, mais um livro de Paul Auster que vai para os favoritados da vida. O que ele faz nesse livro é brilhante!




Paul Auster tem algumas características que saltam aos olhos quando a gente lê mais de um livro dele. “4321” é o terceiro que leio do autor e coloca ele entre os meus autores preferidos (na verdade já era, mas precisava confirmar).


 O que tem de tão bom em Paul Auster?

  • Antes mesmo de falar do livro que supostamente irei resenhar, quero explicar porque Paul Auster é tão brilhante. 
  • Ele costuma contar histórias dentro da história de um jeito único, muito envolvente. Isso me fascina.



  • Os três livros dele que li até aqui, abordam questões cotidianas ou não, aparentemente “comuns” e ele consegue extrair o extraordinário delas. Como? Não sei explicar, só lendo pra saber.
  • Ele procura inserir o ofício do escritor no texto. Não é apenas que o personagem é escritor, ele insere o universo, o fazer da coisa, e a gente acompanha o processo de alguma forma. No livro “Viagens no Scriptorium” é de explodir a cabeça.
  • A escrita é impecável, não tem sobras de texto, não tem uma parte que tu pense “isso não precisava”. Tudo faz sentido e é muito bem escrito.


Resenha de “4321” de Paul Auster

“4321” faz referência à história do protagonista, que é contada em quatro versões diferentes. É um romance de formação, ou seja, acompanhamos a evolução do personagem, desde o nascimento até a vida adulta. O cenário é os Estados Unidos, do ponto de vista de uma família judia cujos pais migraram da Europa, antes mesmo da 1ª Guerra Mundial. 

Então, a história dos EUA é misturada à do personagem, que nas quatro versões é de esquerda. E aqui está o primeiro ponto alto do livro. Conhecemos a história desse ponto de vista novo, das minorias, dos que lutam contra a Guerra e vão de encontro aos ideais (patéticos) patriotas e imperialistas. Ferguson, ou alguns personagens muito prócimos, está do lado dos anti-guerra, dos negros, apoiando protestos. 

Passei a entender melhor a história do país, conheci algumas rebeliões estudantis que nunca vi retratada em livros ou filmes antes, tão pouco tinha conhecimento da existência. Isso foi muito legal.



Um personagem, quatro destinos

Essa questão das quatro versões do personagem são muito interessantes. Não tem qualquer elemento sci-fi, não é sobre decisões que ele toma e que magicamente abrem essas quatro possibilidades. São versões muito bem desenvolvidas, algumas com destinos parecidos, porque o personagem é o mesmo. E aqui, Paul Auster dá show! Porque a construção dos personagens dele é de chorar de tão perfeita. As pessoas são as mesmas, com suas vivências, personalidades, com “coisas da vida” diferentes. O modo como o autor se dedica em cada história é incrível. A gente torce por todos Ferguson, não tem um que a gente goste menos, eles são intensos, apaixonados, é lindo!

A criatividade desse homem, para escrever mais de 800 páginas, cada passagem mais interessante que a outra. Não teve momento de sonolência ou preguiça de ler essa história. Mesmo com trechos mais rebuscados e difíceis. Que autor consegue uma coisa dessas? 



Sobre a edição de “4321” da Companhia das Letras

Quando peguei esse livro, fui direto olhar se tinha algum texto de apoio, não tem. Comecei a ler, fiquei um pouco perdida, e a falta de um texto de apoio me deixou um pouco desconfortável. Tive receio de não entender a proposta de Paul Auster com aquelas quatro histórias. Mas, Paul Auster é brilhante (já disse isso?), no final a gente entende tudo. Até a mini bio na orelha do livro ajuda na compreensão. É genial!

O sentimento ao final da leitura é de melancolia, saudade dos personagens e assombro com o brilhantismo dessa obra. 

Dizem que “Trilogia de Nova York” é o livro mais impressionante dele. É provável que este seja o próximo livro dele que vou ler, tenho “Invisível” na lista também. Mas, fico me perguntando se alguma outra história dele vai me impactar tanto. Acho difícil, mas vou amar a surpresa, caso ela venha.

Recomendo demais para apaixonados por escrita, literatura, história e cinema. O livro é cheio de referências e dicas de leituras para aumentar a nossa lista de desejados. 


Para quem ainda não conhece o autor, vou deixar algumas indicações de livros dele abaixo. 

quinta-feira, agosto 26, 2021

Livros nacionais são tão bons quanto estrangeiros?

"Leiam mais nacionais, apoiem a literatura brasileira, o escritor nacional contemporâneo", essas são frases que ouvimos muito por aí quando se é leitor e divulgador de conteúdos literários. Mas, os livros nacionais são tão bons quanto os estrangeiros? Vou cavar a minha cova neste post? Leia esse texto até o fim e descubra! 




Há alguns anos comecei a escrever conteúdo para divulgação  de literatura. Inicialmente, a ideia foi registrar o que eu lia em resenhas bem pessoais para que eu guardasse melhor na memória o que estava lendo. Eu costumo esquecer muito rapidamente. Então comecei a explicar e falar na internet sobre as minhas leituras.

Esse "hábito" despertou o interesse de algumas pessoas, assim consegui seguidores e percebi um mercado gigantesco de escritores fazendo a divulgação dos seus livros. Os quais viram nesses meus canais uma oportunidade de ampliar o seu alcance. São muitos pedidos de leitura e revisão que recebo desde então. E neste post, vou tentar contar um pouco sobre essa experiência.


A experiência de ler livros escritos por brasileiros

Vou aqui descartar o óbvio, Clássicos da Literatura Brasileira são presentes do passado (olha que poético isso!), temos grandes nomes da literatura mundial por aqui, começando pelo nome que já deve estar latejando na sua cabeça: Machado de Assis. Ele é estudado no mundo inteiro, suas obras são perfeitas, para além da escrita. 

O autor fazia crítica social e construía suas histórias em camadas a serem desvendadas pelo leitor. Ele contava a história do Brasil nas entrelinhas, enquanto distraía o leitor com uma trama ficcional em primeiro plano. Fora do Brasil, os gringos consideram Machadão, como consideramos Dostoiéviski por aqui, só pra terem uma ideia.

Temos outros grandes nomes, como Rachel de Queiroz, Emília Freitas, Clarice Lispector (que embora seja ucraniana, é praticamente brasileira KKKK), Graciliano Ramos, Lygia Fagundes Telles, Moacyr Scliar, Cora Coralina, Carlos Drummond de Andrade e tantos outros. 

Ou seja, para os livros clássicos: Sim, livros nacionais são tão bons quanto os estrangeiros. Estou chamando de clássicos aqueles autores já consagrados, e que "pra mim" e para leitores comuns já se tornaram clássicos. Não estou seguindo o rigor do estudo literário no qual vários deles seriam considerados contemporâneos, é bom avisar.




E quanto à literatura brasileira atual? 

Sim, tem muitos autores que já conquistaram seu lugar ao sol, que seguem uma linha literária "profissional", com editores e editoras que fazem um trabalho impecável. É assim com Conceição Evaristo, Aline Bei, Daniel Galera, Raphael Montes, cujos livros deixam nada a desejar aos que vêm de fora (alerta de ironia: "nem parecem brasileiros"). 

A grande questão, acredito, é com os autores independentes. E nessa área, bem, foi aqui que a minha experiência foi traumática e contraditória.


Publicar um livro está muito fácil!

A facilidade de publicar um livro hoje é absurda. Qualquer pessoa, às vezes basta ter um celular, pode escrever uma história e publicá-la. Seja no formato digital, em plataformas gratuitas como o Wattpad, distribuição gratuita, ou na Amazon, cobrando preços simbólicos, ou livro impresso. 

Qualquer um pode mandar seu livro para uma gráfica e imprimir o número de cópias que desejar. Existem vários serviços para auxiliar na preparação do material, revisão, preparação de texto, editoração e etc para uma publicação independente de editoras. E a pessoa sempre pode simplesmente mandar o arquivo feito por ela para a gráfica imprimir. 

Esse livre acesso à publicação é muito positivo, porque não dependemos mais de agentes literários, não fica na mão das grandes editoras decidir que história será publicada ou não. Não há controle. Assim, histórias maravilhosas, bem desenvolvidas, com trabalhos de revisão impecáveis podem chegar na nossa mão. 

Esse livre acesso à publicação, por outro lado, é muito negativo, porque qualquer texto pode ser publicado, revisado ou não, de qualidade ou não, com problemas de estrutura, linguagem, adequação, divulgação de ideias imbecis... Não há controle.

A verdade é que o cenário da literatura independente é uma loteria! Tem livros excelentes, e livros que são ruins. Às vezes, por falta de cuidado e assessoria, revisão crítica ou ortográfica, um olhar profissional para aquele texto. 


Agora começam as contradições... Observe!

Eu acredito que todo livro tem o seu público. Existe também o direito da pessoa realizar o sonho de publicar as suas ideias, de ter um livro publicado e etc. Tem histórias, com tramas e cenas desnecessárias, ou mal contadas. Histórias que ofendem, discriminam, perpetuam preconceitos e costumes arbitrários, como o machismo ou a homofobia, padrões sociais já ultrapassados como o culto à beleza... 

Nesses casos, será que a pessoa tem direito de publicar também? É válido colocar um livro no "mercado" que presta desserviço à sociedade? 

O mundo sem sensura é bem esquisito. No momento em que todos têm direito a se expressar, pode um misógino, racista, homofóbico, gordofóbico, pra resumir: um escroto, escrever e publicar um livro com o texto que quiser, sem filtro? Pode-se ler um escrito desses e aplaudir porque ele domina a escrita, ou porque é nosso amigo, justificando que não fez por querer, passar pano para esses "detalhes" sórdidos? Eu não consigo.




Para mim, é aí que a falta de controle do que vai ser publicado peca e muito. Todo escritor deveria:

  • Ter consciência de que sua obra pode ter problemas e submetê-la para revisões;
  • Enviar seu livro para leitores betas avaliarem a história e considerar as avaliações;
  • Aceitar críticas de grupos sensíveis, verificar se não há ofensa a grupos sociais;
  • Submeter seu texto para revisão ortográfica para garantir que o leitor vai ter acesso a um texto escrito em língua portuguesa correta, já que uma das funções da leitura é consolidar o conhecimento do idioma;
  • Pesquisar sobre os temas que escreve para não incluir informações imprecisas ou incorretas no seu livro;
  • Preocupar-se com a coerência e relevância do material que está oferecendo ao público.

Li um grande número de livros e contos escritos por autores independentes. E notei que poucos se preocupam com os itens citados antes. Vários deles eu sequer fiz resenha:

  1. Porque não sei da realidade da pessoa, porque resolveu publicar o livro daquela forma;
  2. Por acreditar que falta assessoria, às vezes pode ser falta de dinheiro, para entregar um trabalho melhor;
  3. Para não dar palco para um livro que acredito que não deve ser publicizado.


A minha experiência com livros de escritores independentes

Já tive a oportunidade de fazer leituras betas e nunca cobrei por isso. Justamente por acreditar que o escritor independente tem dificuldades e custos demais, sem retorno sobre o investimento. Assim como eu, vários leitores se dispõem a ler e avaliar livros de autores independentes. Então, basta que o escritor se preocupe com isso, para que procure apoio para lançar seu trabalho da melhor forma possível.

Voltando à questão da resenha, não gosto da ideia de divulgar um livro que não julgo bom apenas para "apoiar" o escritor. Não que eu seja a dona da verdade, e por isso não resenho. Porque, não tenho conhecimento técnico para afirmar que um trabalho é realmente péssimo e desnecessário. 

E, porque, caso fosse dona da verdade, vamos supor, eu publicaria a resenha com as críticas necessárias e isso serviria para quê? O livro já está publicado, não há mais o que fazer. Poderia apenas ofender e desencorajar um escritor que talvez só não tenha recebido o suporte necessário. 

Por outro lado, se eu posto a resenha, isso é publicidade. Então minha forma de contribuir para não passar essa ideia ruim adiante é não divulgando o trabalho. Em alguns casos, converso com o autor e explico o que ele pode melhorar para as próximas publicações. 



Isso quer dizer que os livros nacionais independentes não são tão bons quanto os livros estrangeiros? 

Não sei! Nunca li um independente de outros países para fazer tal comparação.

O que posso afirmar é que tem muito livro de escritor independente que merece um lugar na sua estante. Livros muito bem escritos, desenvolvidos, ideias originais. Tão bons quanto livros publicados por grandes editoras. O que só reforça o talento do escritor, já que poucos deles recebem a mesma assessoria que um escritor contratado numa editora grande. 

Você deve estar se perguntando então...


Como encontrar livros nacionais tão bons quanto estrangeiros?

A resposta para essa pergunta é um pouco mais fácil de encontrar! Praticamente todas as plataformas de venda de livros contam com um sistema de avaliação. Então, ler o que os leitores daquela obra falam sobre o livro ajuda muito a entender se ele é bom, se vale a pena dar uma chance.

Outra dica são as plataformas de registro de leitura como Skoob e Goodreads. Lá os leitores registram a progressão da leitura, avaliam com notas e resenhas. Você consegue ver quantas pessoas já leram, comparar as avaliações e tirar as suas próprias conclusões.

Produtores de conteúdo que leem nacionais e postam suas opiniões nas redes sociais também são boas referências para entender se um livro é bom ou não. Procure mais de uma resenha do mesmo livro, se tiver a oportunidade, troque uma ideia com a pessoa e tire as suas conclusões. 


As avaliações de livros são confiáveis? Nem sempre, mas... 

Quando estiver em plataformas como Amazon, Skoob e etc. Procure por avaliações que deram menos estrelas e compare os argumentos destas com o das pessoas que só falaram bem do livro. É uma forma interessante de ver se as avaliações positivas são confiáveis.

Ao buscar as opiniões de produtores de conteúdo, observe se a leitura foi em parceria (o que pode prejudicar o “julgamento”), se as demais resenhas desse produtor costumam ser sinceras. Quando a pessoa nunca fala mal de livro nenhum, mesmo que não tenha lido em parceria, é difícil saber se ela está sendo sincera. 

Mas, existem algumas pistas que ajudam a entender melhor a avaliação. Às vezes, a pessoa não reclama de nada, mas indica só os pontos positivos, motivos para ler o livro. Se olhar as demais resenhas dele, pode encontrar mais emoção nas resenhas de livros que ela realmente gostou. Assim você vai conseguir “catar” nas entrelinhas o que não foi dito do livro que ela não gostou.

Por isso é bom buscar mais de uma opinião sobre o mesmo livro. Busque por resenhas negativas para comparar com as impressões positivas que as pessoas fizeram e decidir (de acordo com as suas percepções e interesses) se o livro vale a pena, fazendo um contraponto entre as opiniões que encontrou.

Como você pode perceber, essas dicas servem para verificar se vale a pena dar uma chance a qualquer livro. Não apenas de brasileiros, independentes ou não. Serve também para considerar a leitura daquele livro que estourou no hype e você ficou com vontade de ler.


Os livros nacionais são tão bons quanto os estrangeiros?

Voltando à questão central deste post, tentei aqui trazer pontos para ajudar a entender todo o cenário, que não é tão simples. Temos sempre que avaliar o contexto: são livros independentes ou lançados por editoras? São editoras grandes ou pequenas? Tem editora que sequer revisa o texto do autor, simplesmente editora e publica. Cobram somente para isso. 

Então, um livro publicado por editoras grandes, que fazem o "serviço completo", e aqui incluo uma tradução decente dos escritores estrangeiros, não vai ter muito erro de digitação ou ortografia, coerência, continuidade da história. E isso independe se o livro é de autor nacional ou estrangeiro.

Quando queremos avaliar se o livro é bom ou ruim "para nós", é uma questão pessoal. Neste caso, para saber, só lendo, ou buscando saber com quem já leu, se aquela obra é interessante, se tem elementos bem desenvolvidos, se é o tipo de livro que gostamos.


E as publicações independentes?

Quanto aos livros independentes, bem... De novo! Tem que ler pra saber ou buscar se informar. 

Vale lembrar que escritores independentes normalmente têm perfis em redes sociais, onde falam dos seus livros com bastante frequência. Assim, você pode seguir a pessoa, ver se se identifica com as ideias dela, ver o que ela divulga sobre o livro, conhecer a sua escrita pelos posts. E isso pode ser bem interessante para definir se vale a pena ou não dar uma chance para o livro dela.

Há também "editoras independentes" ou grupos, associações, de escritores de um determinado gênero. Como a Editora Draco, Minna Editora, ABERST (Associação brasileira dos escritores de romance policial, suspense e terror) ou a iniciativa SAIFERS BR (Autores independentes de Ficção Científica Nacional) saiba mais aqui, dentre outras, que estabelecem requisitos para um texto receber o seu selo.

Essas características também ajudam a identificar obras que tiveram cuidados com a publicação, revisões e todas aquelas etapas para melhorar a obra e garantir que tecnicamente ele seja de qualidade.




Livros nacionais ou estrangeiros? Não importa...

A conclusão para essa conversa toda é: num mundo em que a publicação é livre, o ideal é buscar as ferramentas disponíveis em meio a essa liberdade, para tentar garimpar boas obras e se divertir com a leitura. Tenha a mente aberta para "dar chance" ao livro nacional, tanto quanto ao estrangeiro. Mas, não faça disso uma religião.

Quando adentrar a este mundo e pesquisar por aí, você vai notar uma tentativa de "controle" da sua leitura. Textos e vídeos querendo desmerecer leitores que só leem estrangeiros, julgando que são despatriados, sem consciência de classe e outras merdas. Vejo muito disso em perfis de escritores brasileiros, que se sentem injustiçados frente à concorrência da literatura mundial já "consagrada".


Somos livres para ler o que quisermos

Veja bem! Somos livres para ler o que quisermos, aquilo que nos faz bem, que precisamos, ou seja lá porque motivo você lê. É legal apoiar a leitura nacional? É. Mas isso não é regra ou obrigação, cada um lê o que quer. Não se sinta intimidado por esses discursos. 



Ler best-sellers é bom, ler autores como Octavia E Butler, Stephen King, Margaret Atwood, Isaac Asimov, Ray Bradbury, Fiódor Dostoiévski, Haruki Murakami, Agatha Christie, [adicione aqui o seu autor favorito], é bom demais! E faz parte inclusive da formação de um leitor, ler um pouco de tudo para ter uma noção geral da literatura, poder comparar as obras, autores, gêneros, se descobrir enquanto leitor, ou passar a vida lendo a mesma coisa. Cada um sabe de si!

Nota maldosa: vejo escritores que só leem estrangeiros, essas são as suas referências para os seus escritos, pregando que nós "reles mortais" devemos ler livros nacionais e apoiar a literatura brasileira. Querem o quê? Que a gente consuma o que eles digeriram das grandes obras? 

Enfim... a hipocrisia!


E pra finalizar esse texto "monstro", apenas leia! 

Eu acredito que ler abre a mente, ajuda a esclarecer as ideias, é aprendizado, é intelectualmente enriquecedor, mas, acima de tudo, é diversão. Ler tem que ser prazeroso.


Fim!

=P

sexta-feira, agosto 13, 2021

Resenha | Onde Kombi alguma jamais esteve, de Gilson Cunha

Uma das coisas mais legais da vida de leitora é descobrir novos universos onde se perder. E é assim que Gilson Cunha e o seu livro "Onde kombi alguma jamais esteve" entra pra minha história. 




No final de março de 2020, o livro esteve gratuito ( eu já tinha ouvido falar dele antes, e fiquei na vontade) mas, dessa vez resolvi espiar pra ver do que se tratava. E o que era pra ser só uma espiada, virou uma leitura alucinada. Gilson despertou meu interesse da capa à última linha dessa história!


O que você encontra em "Onde kombi alguma jamais esteve?"

Quando o título diz que a Cremilda, a Kombi, esteve onde nenhuma outra ousou sonhar em ir, é porque ela foi turbinada. Ganhou uma inteligência artificial e a capacidade de viajar no tempo, espaço e no não-tempo. Qual leitor de Sci-fi não fica empolgado com uma promessa dessas?




Se até aqui a história já tinha conquistado a minha atenção, imagina quando conheci o cara que dirige essa Kombi, o Alfredo, Alfredão para os íntimos! Um personagem marcante, louco, cativante, apesar de bizarro. Pra mim, Alfredão é uma mistura de Doctor (Who), Arthur Dent (não vou explicar quem é) e o tiozão que todo mundo tem. Desagradável, mas querido ao mesmo tempo. 

A narrativa é divertida, com pontos de crítica e ironia inacreditáveis, e seriedade. São nesses momentos que o protagonista mostra o seu grande coração e sabedoria, adquirida nos seus mais de 2 mil anos. Pois é, o homem foi modificado (geneticamente?) e recebeu alguns apetrechos transhumanistas numa situação muito inusitada, assim como a sua Kombi, a Cremilda.

O enredo é muito bem amarrado. Além das idas e vindas no tempo, tem muitos elementos sci-fi e é recheado de referências da cultura nerd/geek e pop. Gilson é um aficcionado por nerdices e afins, praticamente uma enciclopédia ambulante para essas questões. E neste livro, usou muito desse conhecimento para tornar a trama mais interessante e divertida.



Vale dizer que o estilo de escrita dele e o "tom" de "Onde kombi alguma jamais esteve" me lembrou muito o do Douglas Adams, e o "O Guia do Mochileiro das galáxias". Isso já explicaria por que fiquei tão impressionada. O autor soube trazer essa técnica doida para a realidade brasileira, culturalmente falando, com regionalismo bem dosado. Incrível!

E eu não vou dar a sinopse, porque nada que eu diga aqui vai dar a noção real do que é esse livro. Peço apenas que confiem na minha palavra e leiam. 

É mais um sci-fi perfeito para a literatura brasileira contemporânea e eu só tenho a agradecer a quem me indicou essa leitura (e se não cito nomes é porque não me lembro mesmo!).

E para quem ler e gostar de "Onde kombi alguma jamais esteve", saiba que o autor está escrevendo prequel e já tem em mente uma continuação. Além disso, histórias paralelas dos personagens aparecem em outros contos já publicados. 

Vou deixar o link para alguns deles que podem ser comprados na Amazon a seguir.




Gilson Cunha é Escritor Saifers BR


Já falei aqui em outra oportunidade (A Ficção Científica Brasileira está de cara nova!) sobre este grupo de escritores e leitores unidos pelo amor ao sci-fi. Para saber mais sobre a iniciativa Saifers BR, acesse o site oficial clicando aqui.

Gilson Cunha é biólogo, doutor em genética e biologia molecular pela UFGRS, além de escritor, ele também tem alguns canais de entretenimento. No Instagram e no Youtube, com o canal Café Neutrino. No canal ele desvenda algumas curiosidades científicas, fala de sci-fi e faz passeios aos sebos num quadro muito divertido. 

Vale a pena conferir!

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