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sexta-feira, fevereiro 14, 2025

Resenha | A vida mentirosa dos adultos por Elena Ferrante

 “A vida mentirosa dos adultos” foi minha primeira leitura de Elena Ferrante. Como acompanho lançamentos e livros que ficam famosos na internet, via o nome de Elena Ferrante com bastante frequência, mas nunca tive muita curiosidade para conhecer o seu trabalho, não sei porquê. E no fim, esse livro foi minha primeira leitura de 2025.


Gosto de começar o ano com uma leitura mais significativa, histórias mais complexas e reflexivas, e achei que essa seria uma boa ideia. Adiantando um pouco minha opinião sobre “A vida mentirosa dos adultos”, foi, mas não pelos motivos que eu imaginava.

Neste texto quero falar um pouco mais do que a minha opinião pela obra em si, abordando:

  • sinopse;
  • quem é Elena Ferrante;
  • motivos para ler “A vida mentirosa dos adultos”;
  • minhas impressões, a resenha propriamente dita;

E se escolhi esses tópicos e ordem das informações é por que a resenha vai fazer mais sentido com o contexto.


Sinopse de “A vida mentirosa dos adultos”

As mudanças no rosto de Giovanna anunciam o início da adolescência e não passam despercebidas em casa. Dois anos antes de abandonar a família e o confortável apartamento no centro de Nápoles, Andrea não se dá conta do que sentencia quando sussurra para a esposa que a filha é muito feia. Essa feiura estética, mas que também indica uma possível falha de caráter, recai sobre Giovanna como uma herança indesejável de Vittoria, a irmã há muito renegada por Andrea. Aos doze anos, a menina vê um rosto no espelho e, embora não compreenda a fundo o peso daquela comparação, sente que algo está irremediavelmente à beira de um abismo.

Peguei apenas esse trecho da sinopse publicada pela Intrínseca https://intrinseca.com.br/livro/a-vida-mentirosa-dos-adultos/ porque acredito que ela já dê uma ideia do que acontece na história, mas se você quiser ler por completo, clique no nome da editora, que coloquei o link, ou veja a sinopse na Amazon clicando aqui


Quem é Elena Ferrante?

"Elena Ferrante é o pseudônimo de uma escritora italiana, cuja identidade é mantida em segredo." Eu confesso que fiquei surpresa quando li essa frase na bio publicada na Wikipedia. Essa pessoa tem oito romances publicados, sendo o primeiro deles 'A Amiga Genial', que inclusive virou série. Elena Ferrante foi eleita pela revista Time uma das 100 pessoas mais influentes do mundo em 2016, mesmo sem saberem quem ela é? Fiquei me perguntando, e se for um homem? Por que "as pessoas" têm tanta certeza de que é uma mulher? Considerando o conteúdo de "A vida mentirosa dos adultos" fiquei, sim, duvidando dessa biografia especulada para a pessoa que escreve os romances.

Apesar de parecer um grande mistério, a identidade da autora já foi desvendada, o que só descobrir depois de ler. Se quiser saber mais sobre isso, leia a reportagem do El Pais

Enfim, achei essa questão bastante curiosa e essas informações se juntaram ao contexto para as minhas impressões sobre a leitura. Se não dá para separar obra de autor, como faz neste caso de um pseudônimo?


Motivos para ler “A vida mentirosa dos adultos” de Elena Ferrante

Estava procurando livros abordando a bisexualidade, porque sou dessas, que explorasse a descoberta e a vivência dessas pessoas. Obviamente me interessava a vivência de mulheres, de preferência adultas. Algo que está em falta nessa “área” diga-se de passagem. Vemos muitos livros com abordagem LGBTQIAP+, mas normalmente com personagens adolescentes, já com uma revelação e descoberta mais atualizada com os novos tempos. 

Sem querer desmerecer as questões dos mais jovens, noto que pouco se fala de pessoas da minha geração que, acredito, tenham questões e problemas diferentes, com a descoberta tardia, com dramas mais específicos. E era sobre isso que queria ler, conhecer, entender e etc.

“A vida mentirosa dos adultos”, de Elena Ferrante, surgiu nas minhas pesquisas e era isso que esperava encontrar nessa leitura. 


Resenha de “A vida mentirosa dos adultos”

Agora que vocês já entenderam o contexto do livro e as expectativas que eu fui criando antes e durante a leitura, vamos as minhas impressões!

Sobre a leitura: é bastante fluida, gostei muito do estilo de Ferrante escrever. É o tipo de escrita que nos envolve na história, é simples sem ser simplista. Entendi por que os livros são famosos e a notoriedade que a autora ganhou com as suas publicações. Foi bom de ler. 

No início a história parece que vai ser um romance de cotidiano, e isso me deixou um pouco confusa, porque não tinha certeza se era esse tipo de livro. Conforme acompanhava o “amadurecimento” de Giovanna, identifiquei-me com muito do que ela estava passando. O que mostra um domínio muito grande da pessoa escritora sobre o seu texto. As imagens são bem realistas e muito vivas para o leitor.

Mais para o meio do livro, eu fiquei ainda mais confusa sobre onde essa história iria dar, porque muitas questões são levantadas e vão sendo abandonadas para dar foco em outras e as ideias meio que se perdem ao longo da narrativa. O final é meio sem sentido, quando terminei fiquei pensando, pensando… sem conseguir chegar a uma conclusão. Dias se passaram e ainda não sabia ao certo sobre o que eu tinha lido. E foi então que comecei a criar algumas teorias a respeito da obra. 

Primeiro, a questão da sexualidade, que alguns disseram ser explorada, mas que é minimamente citada. Por quê? Eu especulo que as situações em que as personagens são colocadas expõem a sexualidade para quem se identifica com elas. O desgosto com homens, o sentimento de não se encaixar no convívio social, de não atender às expectativas sociais de gênero. É sutil? Acho que depende do olhar e da vivência do leitor.

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A confusão de temas e cenários envolvendo as personagens… Talvez Elena Ferrante tenha nos colocado na mente de uma adolescente, confusa, passando por todos aqueles problemas sem saber priorizar o que importa, sem saber como lidar com tudo aquilo? É uma saída possível, porque a história é contada do ponto de vista dessa personagem. Quem já foi adolescente sabe que essa não é a melhor das fases, que a nossa mente fica um tanto perturbada, ainda mais quando temos, de fato, algo visto como “errado”. É interessante pensar dessa forma, e isso me tomou algumas horas de reflexão.

Logo, se preciso definir o que achei do livro de maneira objetiva, digo que gostei. É um bom livro, que nos faz pensar, tem a complexidade que eu esperava, mas ele foi bom por motivos diferentes do que imaginava. E ser surpreendida por uma leitura, num mundo em que todas as histórias parecem mais do mesmo, certamente é uma boa forma de começar o ano de uma leitora. 🙂

Seja como for, se você chegou até aqui e está considerando a leitura de “A vida mentirosa dos adultos” vá em frente. Leia, depois me conte o que achou. Caso tenha chegado aqui porque leu e não sabe se entendeu, espero que tenha gostado das minhas impressões. Aproveite e deixe as suas aí nos comentários. Vou adorar saber a sua opinião. 

No mais, pesquisando sobre o livro para complementar o post, descobri que em 2023 a Netflix lançou uma série baseada no romance. Vou deixar o trailer aqui pra vocês. Já vi algumas alterações foram feitas nas personagens, e gostei. Acho que fazem mais sentido.


Trailer da série “A vida mentirosa dos adultos”:



terça-feira, outubro 31, 2023

Resenha: O cair da noite, de Isaac Asimov

Conto de estreia de Isaac Asimov, "O cair da noite" é o tipo de estória que tira o leitor da zona de conforto. Eu o li nessa edição da foto, mais antiga, encadernada à mão, super fofa. Recentemente o livro foi relançado pela Editora Aleph, numa edição maior (não sei como) e com aquelas capas coloridas, que combinam com os demais livros da nova roupagem da editora.




Resenha de “O cair da noite”, de Isaac Asimov⠀⠀⠀


Essa história curtinha é impressionante por sintetizar muitos elementos. Ela fala de ciência, religião, medo, mudança e de astronomia.

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Em um planeta distante algo está prestes a mudar para sempre, segundo os cientistas, e lá a ciência é questionada. Certamente quando Asimov escreveu isso, pensou num absurdo e quis chocar as pessoas com um tipo de horror inimaginável (o póbi). 


Nesse universo criado pelo autor, as pessoas entram em negação e, por conta disso, a vida no planeta corre o risco de desaparecer junto com todo o conhecimento adquirido, com a aproximação de um fenômeno que parece ser cíclico.

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Não é o nosso planeta, o ano não é 2020, mas bem que poderia ser. 👀

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O desfecho desse conto é incrível e me deixou pensando muito sobre muita coisa. Preciso reler para buscar mais informações, porque certamente tem muitas camadas que não percebi. A escrita de Isaac Asimov é bem objetiva e pode ocultar muitas informações para o leitor mais apressado. Por isso ganha-se muito com as releituras, as suas histórias ficam sempre melhores.





Curiosidade sobre "O cair da noite"

Para quem leu “O problema dos três corpos”, há uma semelhança interessante entre as duas histórias, o que me faz pensar que Cixin Liu se inspirou no “O cair da noite”. Simplesmente não pode ser coincidência.

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Enfim, é Asimov, numa escrita tão fluida quanto estamos acostumados, mas é diferente dos seus livros mais populares. Instigante e surpreendente, esse conto pode ser lido numa sentada.

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Importante: este conto foi adaptado para o cinema e depois romanceado (transformado em livro) pelo autor Robert Silverberg. Eu ainda não li essa outra versão da história e nem posso imaginar como isso foi feito. Porque o conto é muito curto, embora denso.

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Falo disso porque algumas pessoas só conhecem o romance, e esse conto tem preço de livro na Amazon. É uma surpresa quando a gente vê que ele é tão pequeno. Inclusive por isso a resenha é bem breve, a fim de deixar que o leitor descubra ao ler todas as nuances. Se você leu, fique à vontade para deixar as suas impressões nos comentários.


Pode ler em qualquer ordem

Se você sabe que existem alguns livros em um universo criado pelo Asimov, histórias interconectadas, e se pergunta onde “O cair da noite” se encaixa, bem… Ele não faz parte da saga e pode ser lido sem uma ordem específica. 


Se quiser um guia para ler a grande saga que vai de “O fim da eternidade” à Fundação, tenho um post falando sobre isso aqui.





segunda-feira, outubro 30, 2023

Império Galáctico de Isaac Asimov, o que esperar da trilogia?

Recentemente a Editora Aleph lançou a “Trilogia do Império Galáctico”, que reúne os livros: “As correntes do espaço”, “Poeira de estrelas” e “Pedra no céu”. Esses livros abordam a vida na galáxia dominada pela humanidade. E, embora sejam incluídos na lista de livros para serem lidos da grande saga criada por Isaac Asimov, eles não estão diretamente ligados às histórias principais. É isso que vou tentar explicar aqui, fugindo de spoilers, para não estragar a experiência de leitura de ninguém.


Se você não está familiarizado com essa grande saga das histórias do autor, leia esse post: Guia de leitura para ler Isaac Asimov.




O que esperar da trilogia do Império Galáctico, de Isaac Asimov?

 

A ordem de leitura recomendada para os livros do império galáctico pela maioria dos leitores é essa: 

  1. As correntes do espaço.
  2. Poeira de estrelas.
  3. Pedra no céu.


Essa é a ordem que recomendei no post citado antes, mas depois de ler, confesso que não vi muito sentido. No primeiro livro, “As correntes do espaço”, o império está se formando e Trantor é citada, já como uma grande influência. No segundo livro, “Poeira de estrelas”, acontece um “passeio” pela galáxia, tem um pouco mais de ação do que o primeiro, mas não faz qualquer referência ao império. 


Já em “Pedra no céu”, há menção aos siderais, primeiros humanos a explorarem o espaço, a hostilização aos terráqueos, presentes na série dos robôs, e há a presença forte do império. Porém, vale ressaltar que a Terra estar nesse contexto é controverso, quem ler entenderá.



Breve resenha da Trilogia do Império Galáctico

Como esses livros não são meus favoritos, em vez de fazer um post para cada resenha, vou falar brevemente sobre cada um deles aqui, com as minhas impressões sobre a leitura e para o contexto da leitura dentro desse universo.




Resenha de “As correntes do espaço”


 "As correntes do espaço", de Isaac Asimov, é um dos primeiros romances do autor e fica evidente o quanto ele melhorou quando se compara este livro com as grandes publicações da carreira dele. É uma história datada, marcada pelo machismo, pra dizer o mínimo, chato demais. 


Em relação ao universo do império galáctico, essa história fica solta. Não faz diferença ler ou não, e arrisco dizer que ele ficaria melhor "posicionado" se lido depois de terminar a saga da Fundação. Pra matar as saudades.


Trantor é mencionada, o império está se formando, mas a trama é focada numa outra situação. Uma disputa política, uma luta de classes, em outro canto da galáxia.


É uma história interessante, separada da grande saga, ver como, já nessa época, os autores estavam "preocupados" com escassez de recursos de um planeta, assunto tão atual para 2023, ou ver o surgimento das ideias políticas que serão tão melhor desenvolvidas na Fundação.


Nele a Terra é citada como um mito, algo que fica mais evidente ao longo da Fundação e que me fez questionar a ordem dele na trilogia. De qualquer forma, uma boa história, mas não a minha favorita de Asimov.





Resenha de “Poeira de estrelas”


"Poeira de estrelas", de Isaac Asimov, vou ser sincera com vocês: é fraco e, às vezes, irritante.


A misoginia está presente retratando um tempo em que ser mulher era ainda pior do que nos dias de hoje. Asimov não conseguiu escapar disso. Sua mente brilhante era bem míope quando o assunto era notar que mulheres são mais do que adereços frágeis e histéricos. 


Feita essa reclamação, "Poeira de estrelas" é um pouco melhor do que "As correntes do espaço". A trama é um mais interessante e nele acompanhamos uma jornada pela galáxia. Neste quesito Asimov sempre faz um bom trabalho. Adorei as explicações sobre as naves, como elas atravessam o espaço. Essas ideias todas são e sempre foram muito consistentes no autor.


É um livro "ok", funciona pra se distrair, a leitura flui, mas volto a afirmar: Asimov tem muito mais a oferecer, e que bom que ele evoluiu muito desses livros em diante.


A leitura é válida para fans, e saudosos do universo do autor, mas não faz qualquer referência ao império ou a robôs, o que surpreende, já que está nessa trilogia.




Resenha de “Pedra no céu”


"Pedra no céu", de Isaac Asimov é um dos primeiros livros dele que eu li. Eu lembro da sensação de ler e pensar "quero mais" e aí ir atrás dos outros livros. Daí até descobrir que esse livro faz parte de uma trilogia que está no meio de uma saga, que vai de "O fim da eternidade", passa pelos robôs e termina lá na Fundação, muitos anos se passaram. 😂


Agora, relendo na ordem indicada pelo autor (a lista com essa ordem está aqui), eu posso garantir pra vocês: a trilogia do império galáctico pode ser lida fora de ordem. Inclusive, pode ser lido depois, beeem depois, pra matar a saudade desse universo.


Mesmo sem muita conexão, "Pedra no céu" é, entre esses três, o que mais gosto, e o que mais me remete ao ambiente da Fundação. Porém, sem muita política, o que torna ele mais interessante pra mim.


Acho que aqui Asimov ainda está com a pegada de contista, preocupado em entreter, e o resultado é um romance muito divertido e curioso.


Nele já vemos algumas discussões que vão ser melhor exploradas em outros livros da saga e que deixam aquele gostinho de quero mais.


É o melhor livro dele? Claro que não, mas dessa trilogia é o melhor e mostra o que Asimov tinha de ideias para entreter os seus leitores no futuro.



Esqueça a ordem certa para ler a trilogia do império galáctico!


Minha conclusão sobre essa trilogia é que ela foi “vendida” como tal apenas para fazer um box, pra editora ganhar mais dinheiro, para colecionadores ficarem felizes. Em relação a ordem de leitura, não se preocupe com isso. Eu comecei por Pedra no céu e não fez muita diferença naquele momento, e cada um pode criar as estratégias conforme seu gosto. Vamos a algumas alternativas:


  • Ler por ordem de publicação: começa em “Pedra no céu” (1951), depois “Poeira de estrelas” (1951) e então “As correntes do espaço” (1952).

  • Ler por ordem cronológica do ponto de vista da saga completa: “As correntes do espaço”, “Pedra no céu” e depois “Poeira de estrelas”.

  • Ler quando der vontade, depois da saga dos robôs, na ordem que preferir. 


Para mim a melhor opção é a terceira, com um adendo: não coloque esses livros entre a leitura da série dos Robôs ou da Fundação, pra não perder o ritmo e os detalhes. Como já falei em outros posts, a gente ganha muito lendo os livros na sequência e sem muito intervalo de tempo entre eles.


Em qualquer situação: Leia Asimov!




quinta-feira, setembro 21, 2023

Audiolivros grátis em português? Agora é possível!

 Parece mentira, mas a Amazon está oferecendo três meses de audiolivros grátis com muitos livros em português com a chegada da plataforma de audiolivros Audible.



O Audible é uma ferramenta para ouvir livros já muito conhecida em outros países e por estudantes e falantes da língua inglesa no Brasil. O catálogo agora conta com vários livros em português e essa promoção da Amazon com três meses gratuitos para ler quantos livros quiser é muito boa. É uma oportunidade para experimentar audiolivros completos, para quem ainda não se aventurou pelo mundo dos audiobooks, e para quem já vê vantagens nesse formato, vai poder ler muito audiolivro de graça. 

A promoção de três meses grátis é para quem assina o Amazon Prime e, após esse período, a assinatura fica R$19,90 por mês. O catálogo conta com mais de 100.000 títulos em vários idiomas. 

A assinatura dá acesso a mais de 100 mil audiolivros, permite baixar os audiolivros para ouvir mesmo offline e dá 30% de descontos para compra de audiolivros fora desse catálogo da assinatura. Clique aqui para ver o catálogo de assinante

Pelo que ouvi de alguns leitores, está com poucos títulos em português, mas a Amazon avisa na página do serviço que essa é uma versão beta, então é provável que em breve tenhamos mais opções, como aconteceu no Kindle Unlimited - o serviço de ebooks da Amazon.

Para aqueles que já aderiram ao audiobook me parece uma boa opção, pra não precisar procurar audiolivros no spotify, youtube ou procurar audiolivros grátis para download. Com o Audible, a pessoa pode ouvir onde estiver e continuar o livro de onde parou, como acontece nos ebooks no Kindle.


Para saber mais sobre o serviço e assinar clique aqui


sexta-feira, maio 27, 2022

Resenha de "Babel-17" e "Estrela Imperial", de Samuel R. Delany

 Sabe o que é? Ficção científica nas ciências humanas é emocionante. "Babel-17", de Samuel R. Delany, é diferente de tudo que estamos acostumados a ler. O autor foi ousado e acredito que pague o preço ficando meio "mal falado". Já explico!




Se você buscar resenhas, vai encontrar muita gente que não gostou ou considerou o livro muito difícil e o abandonou… É um texto que exige atenção e envolvimento do leitor. Às vezes, eu voltava algumas páginas para verificar se estava entendendo o que lia. Mas, a leitura atenta é o bastante, e para quem persiste, muito prazerosa.


Babel-17, além de um sci-fizão (ficção científica de qualidade inigualável, leia mais aqui) com viagens interestelares, uma guerra entre mundos de diferentes setores da galáxia e um mix de civilizações, acompanhamos o trabalho da Dra. Wong que precisa “decodificar” um idioma, que os caras nem sabiam que era um idioma até ela lhes dizer isso.



Uma protagonista per-fei-ta!


Wong é uma protagonista incrível. É a especialista que todos procuram quando ninguém mais consegue resolver um puzzle. Além disso, devido a sua facilidade com idiomas, é uma excelente líder no comando de tripulações, o que descobrimos quando ela reúne os profissionais de que precisa para sair em busca de respostas em sua “própria” nave.




O ponto central da história é o trabalho de decodificar o Babel-17. Um idioma que perturba Wong, não apenas pela dificuldade. É aqui que o autor ousou mais. Ele coloca o leitor para perceber as nuances desses códigos junto com a protagonista. O sistema de escrita é alterado, ela vai experimentando, estranhando e descobrindo Babel-17 e é como se estivéssemos dentro do seu cérebro.


É confuso? Sim. Mas é brilhante ao mesmo tempo. Eu nunca tinha lido nada igual e achei perfeito. Quando o plot se aproxima e a gente entende o que estava acontecendo, dá vontade de voltar e ler o livro todo de novo para “pescar” alguma outra pista que talvez tenhamos deixado para trás.


Esse é o tipo de criação que mais me agrada na literatura fantástica. O autor conseguiu criar algo único, que parece complexo por ser inovador, sim, ele inventa uma forma de narrativa que mexe com as nossas mentes! 


E ele não para por aí. O livro tem “dois lados” literalmente. Na outra ponta temos “Estrela Imperial”.



Estrela imperial é uma loucura! 🤯


Samuel R. Delany fez algo tão inusitado nesse livro, que fico sem saber por onde começar. Principalmente quando quero falar de "Estrela imperial", separado do “Babel-17”, embora eles nos sejam entregues “juntos”. Já adianto que há uma conexão entre eles. O livro “Estrela Imperial” é citado pelos personagens, como literatura mesmo.



Enredo de “Estrela Imperial”


Cometa Jo vive numa região afastada da galáxia. O seu planeta é responsável pela produção de jhup. Uma commodity (não achei um sinônimo melhor), que serve de nada no planeta dele, mas que é usada como liga na fabricação de plástico galáxia afora. A relação com esse produto é tão estranha, que usam o nome como "palavrão". É mais ou menos como a gente deveria falar de “soja” no Brasil.



Cometa é descrito como "simplexo". Nesse universo existem os simplexos, complexos e multiplexos. Que são, aparentemente, níveis de reflexão e profundidade de consciência a que uma pessoa pode chegar. A explicação é dada por exemplos ao longo da história, e vai ficando mais clara para o leitor.


A demora no entendimento me fez refletir muito, será que eu sou simplexa por isso? Mas, daí descobri que fazer perguntas já é sinal de complexo... A coisa segue mais ou menos essa linha.


A jornada do personagem começa quando ele recebe uma "gema" que carrega uma mensagem a ser entregue na "Estrela imperial", o centro de poder da galáxia. As pessoas que ele encontra a partir dali vão dando a noção de que ele é ingênuo demais. Inclusive, uma dessas pessoas explica que ao sair do planeta, ele nunca mais será o mesmo, que precisa avaliar bem essa decisão.


E esse tom de "fábula" me deixou um pouco com preguiça da história. Ele parece um personagem da Disney, vencendo preconceitos, se entendendo como gente, querendo mostrar seu valor. Mas não é tão simples assim. 


A história tem um fundo sombrio, embora alguns personagens sejam cômicos. Personagens esquisitos, uma situação de escravidão muito tensa no meio da história. Uma missão multiplexa, eu diria. Que vão fazendo Jo amadurecer ao longo da história, a sua transformação vai sendo mostrada gradativamente, é muito bonito.


Apesar disso, nada parece fazer sentido até que chega o final e os acontecimentos nos remetem a cada etapa lá do início, fechando um ciclo temporal e nos dando essa dimensão da evolução do personagem. 🤯



É o tipo de livro que, quando terminamos de ler, a vontade é de começar tudo de novo, na mesma hora. É incrível!


A junção dessas duas histórias, igualmente futuristas e disruptivas em termos de narrativa é tão genial (sem exagero), que não sei como Samuel R Delany não é mais conhecido. Saiba mais sobre o autor clicando aqui.




Peguei esse livro pela parceria com a Editora Morro Branco. Quero inclusive agradecer pela sugestão tão acertada. Talvez ele não fosse minha primeira escolha, mas foi fantástico começar esse novo ciclo com essa leitura. 




quinta-feira, março 17, 2022

Resenha | Bint, por Knedi Okorafor

Vou abrir essa resenha com a questão central: O livro, a edição brasileira, "Binti", de Knedi Okorafor,  tem problemas. 

Vou aqui elencar em tópicos os problemas que encontrei nessa leitura (sim, pensando no todo) e com essa edição. E, principalmente, tentando separar o meu "desgosto" com a história e o que problematizei sobre tudo, contexto, cenário e edição.




"Binti" foi premiado com Hugo e Nebula 

Então, minha primeira crítica vai para a editora. Porque esse livro tem uma tradução ruim, ele tem problemas de revisão, erros de digitação e concordância. O que é inaceitável para uma editora do porte da Galera Record, que teria condições (na minha visão "obrigação") de cuidar melhor de um produto como esse.

No post do Instagram eu disse que o livro estava mal escrito. Revi esse ponto agora, ao adaptar essa resenha para o blog, porque aqui eu tenho condições de elaborar melhor essa ideia. Estar "mal escrito", no caso de uma tradução, envolve vários quesitos. E, acredito que um livro que recebe prêmios importantes de literatura, têm algum valor literário. É o mínimo que se espera.

Acredito que o texto tenha sido mal traduzido, sem considerar algumas questões culturais da língua original em que foi escrito, ao passar para o nosso idioma. Por exemplo, quando a autora descreve uma situação dramática, em que a personagem foi derrotada, está desiludida, mas percebe a ironia daquele episódio da sua vida e completa o seu relato dizendo simplesmente "Ri". Eu estou interpretando e querendo acreditar que ela "sorriu", porque o "riso" normalmente está associado ao deboche. O que não caberia naquilo que acabei de ler.

E esse "Ri" aparece diversas vezes. A história tem muito drama e a personagem "ri" de tudo. Aquilo não faz sentido. Por mais que a gente entenda o problema de tradução literal (ou seja lá que jargão técnico se dá pra isso), quebra a fluidez e no meu caso, faz perder completamente o interesse pela leitura.


Não é ficção científica (e porque eu me importo?) 

Estamos cada vez mais nos deparando com classificações de gênero erradas. Entendo que às vezes é difícil de encaixar um Weird que inclui pinceladas de sci-fi (Como "É assim que se perde a guerra do tempo") ou quando a história mistura elementos de ficção científica com fantasia. Mas Binti, além de descrever um universo fantástico, tem pseudociência, o que considero ainda mais problemático "hoje em dia". 

Para entender o que penso que seja Ficção científica, leia: O que define uma obra como de Ficção Científica?

  1. Pensa comigo, se a ideia é ser ficção científica, não faz sentido explicar a origem do que chamam de ciência como algo que veio de deidades, e não do estudo científico. Certo? Assim como não faz sentido falar que é sci-fi um dom que não se ensina, não se passa adiante, nem se evolui, só repete o que recebeu divinamente.
  2. A outra parte do que poderia ser considerado "tecnológico" passível de qualificá-lo como elemento sci-fi, foi um salto tecnológico dado de "presente", de alienígenas, para uma tribo. E os seres humanos, de posse desses artefatos, não foram estudá-los para entender como funcionavam, como melhorá-los ou reproduzi-los. Eles passam gerações usufruindo desse recurso, sem compartilhá-lo ou desenvolvê-lo. Nem mesmo uma engenharia reversa para entender melhor, caso aquilo parasse de funcionar.
  3. A viagem espacial é um elemento sci-fi, vocês podem argumentar. Mas e se a viagem para o espaço é feita com um bicho que apareceu aqui na Terra e convidou os humanos pra um passeio? 👀 Não foi a humanidade, nem qualquer outra civilização, que desenvolveu a tecnologia necessária...
  4. E não para por aí. Existe uma "universidade universal", no espaço. Mas, ela serve pra desenvolver habilidades que os alunos normalmente trazem consigo, não pra difundir conhecimento ou estudar para fazer novas descobertas. Qualquer semelhança com a escola de bruxos mais famosa do mundo, ou a escola do Xavier, não deve ser mera coincidência.
  5. Então, retomando aqui a questão dos elementos que qualificam uma obra como de ficção científica, entendam que: se a origem da tecnologia ou mesmo da viagem espacial e contato extraterrestre não tem explicação científica: é fantasia. Se existe um poder sobrenatural... Fantasia, weird, realismo fantástico, ficção especulativa - não tem porque chamar de ficção científica.


Engana-se quem pensa que a fantasia se ocupa de descrever universos desprovidos de tecnologia. Os personagens podem voar pelos mundos, fazer uso de naves espaciais, encontrar extraterrestres, robos, se envolver em guerras e ainda será fantasia, caso não explique a origem científica disso. Ex: Star Wars.

É um problema Bint não ser Sci-fi? Claro que não. Estou apenas sendo chata e pontuando algo que ME incomoda, porque não sou fã de fantasia.


Qual é a proposta de Binti? (a problematização)

A ideia desse livro era discutir os povos africanos? Posicioná-los na literatura com os "futurismos" que pedem a contemporaneidade? 

Bem, uma fração disso é apresentada quando a personagem mostra o seu preconceito em relação a uma tribo vizinha. Três tribos vivem muito próximas e se odeiam e procuram ignorar a existência uma da outra ao longo de gerações. Ok, isso é bem humano. 

Mas, no que contribui para a inclusão de povos africanos, os três povos serem preconceituosos e intolerantes uns com os outros, parados no tempo. Não entendi? Li errado? Provavelmente.

Fazendo um link desse tópico com o anterior e juntando com a minha opinião/visão dessa história. Acho problemático colocar tecnologia alienígena ou divina nas mãos de um povo como único recurso para o avanço tecnológico. Acho problemático que a história priorize o acesso ao conhecimento e desenvolvimento de povos como "presentes" e não como pesquisa, estudo e esforço em busca daquilo. 

Eles não têm capacidade? Passamos dos anos 2000, a computação, medicina, viagens espaciais, wi-fi são uma realidade, fruto de pesquisa e estudo. Porque o afrofuturismo não coloca isso como parte da sua história? Eu não entendo.


Opinião pessoal, minha mesmo

No mais é um YA (jovem adulto), para mim, raso, cansativo e redundante. A menina chora por tudo e por nada. Ela sequer desenvolve os sentimentos que a levam aquele sentimento, só diz que chora, chora e chora... 🙄 A personagem fala do aparelho que achou no deserto e do negócio que passa pelo corpo e o quanto aquilo é importante pra identidade cultural dela. Mas, assim, sem elaborar, só repetindo mesmo. 🤦🏻‍♀️

O livro é narrado em primeira pessoa, poderia nos dizer o que estava "pensando ou sentindo" e não o que estava "fazendo".


Enfim... É essa a minha opinião sobre esse livro, do qual esperei tanto e me decepcionou pacas.


Fim. 

terça-feira, agosto 31, 2021

Resenha | A vespa esmeralda, por Maikel Rosa

 Outro dia fiz um post falando das novidades no sci-fi nacional, e “A Vespa esmeralda” de Maikel Rosa, é uma delas. O autor faz parte do selo Saifers (Saiba mais sobre o SAIFERS BR aqui), já li e reli esse livro, embora só agora traga a resenha aqui para o blog.

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"A vespa esmeralda" traz um elemento de ficção-científica pouco explorado na literatura Sci-fi: a consciência que troca de corpo. Algo que já vimos em filmes, séries e até em desenhos animados. Quem não lembra daquele episódio clássico do pica-pau com o cientista maluco? 


Exceto pelo episódio do Pica-pau, que embora seja uma piada, explica a ciência torta usada pelo Professor Maluco, a maioria das histórias não se preocupa muito em apresentar a explicação científica que possibilita essa mudança. Em “A vespa esmeralda”, Maikel leva essa questão bem a sério e de forma muito simples, explica como essa mudança é possível. 

Em seu romance, não há uma troca de cérebro, a mente que “habilitada” deixa o seu corpo e invade outro. Como isso acontece e as consequências, só lendo o livro pra saber. A primeira vista pode parecer confuso, mas a história está muito bem contada e a gente entende tudo.


Resenha de “A vespa esmeralda”

Após uma complicação durante a doação de sangue, Lauren entra em coma e quando desperta, está do outro lado do oceano, no corpo de uma criança. Sem entender o que está acontecendo, ela inicia uma busca por respostas que vai desencadear um suspense cheio de tensão e mistério envolvendo uma corporação científica bilionária chamada Indigo.

Para tentar explicar a sensação causada por essa história, uso como referência a série Sense8. Alguns elementos referentes a transição da personagem entre os hospedeiros, e um “problema” que ela encontra pelo caminho, são bem parecidos. Inclusive me fez pensar em "erros" que os personagens cometem porque (provavelmente) não assistiram à série. Eu briguei muito com eles por isso! 

Outra boa referência para entender como a história se desenvolve é o livro "Interferências" da Connie Willis. A semelhança entre eles se dá pela leveza da história na explicação do elemento criativo e por acertar a mão no sci-fi tornando a leitura fácil e interessante para qualquer leitor.

“A vespa esmeralda” tem dramas envolvendo os personagens em diferentes núcleos, seja na realidade da família brasileira que tem a sua história atravessada por esse evento com a Lauren, na vida de personagens que se vêem envolvidos nessa trama, até as problemáticas relacionadas com o uso de corpos, feitos pelos personagens com essa “habilidade”. 

O romance traz ainda ficção-científica leve, ou soft sci-fi para quem está familiarizado com o termo, vilões sendo vilões, plots e mais plots, personagens adoráveis e um romancinho para apimentar um pouco a leitura. 


Sobre o autor

Dono de uma escrita fluida, Maikel Rosa impressiona pelas ideias bem desenvolvidas, a clareza, ritmo intenso e pela história criativa e envolvente.

Enfim… Tudo muito bem dosado, interessante, recomendo demais! 

Para quem se interessou, o livro digital pode ser comprado na Amazon, está disponível no Kindle Unlimited. 


Para quem prefere o livro físico, o exemplar pode ser comprado diretamente com o autor. É só mandar um direct no Instagram @escritor.scifibr

E, se quiser conhecer outros títulos do autor, acesse a página do Maikel Rosa na Amazon clicando aqui.

quinta-feira, agosto 26, 2021

Livros nacionais são tão bons quanto estrangeiros?

"Leiam mais nacionais, apoiem a literatura brasileira, o escritor nacional contemporâneo", essas são frases que ouvimos muito por aí quando se é leitor e divulgador de conteúdos literários. Mas, os livros nacionais são tão bons quanto os estrangeiros? Vou cavar a minha cova neste post? Leia esse texto até o fim e descubra! 




Há alguns anos comecei a escrever conteúdo para divulgação  de literatura. Inicialmente, a ideia foi registrar o que eu lia em resenhas bem pessoais para que eu guardasse melhor na memória o que estava lendo. Eu costumo esquecer muito rapidamente. Então comecei a explicar e falar na internet sobre as minhas leituras.

Esse "hábito" despertou o interesse de algumas pessoas, assim consegui seguidores e percebi um mercado gigantesco de escritores fazendo a divulgação dos seus livros. Os quais viram nesses meus canais uma oportunidade de ampliar o seu alcance. São muitos pedidos de leitura e revisão que recebo desde então. E neste post, vou tentar contar um pouco sobre essa experiência.


A experiência de ler livros escritos por brasileiros

Vou aqui descartar o óbvio, Clássicos da Literatura Brasileira são presentes do passado (olha que poético isso!), temos grandes nomes da literatura mundial por aqui, começando pelo nome que já deve estar latejando na sua cabeça: Machado de Assis. Ele é estudado no mundo inteiro, suas obras são perfeitas, para além da escrita. 

O autor fazia crítica social e construía suas histórias em camadas a serem desvendadas pelo leitor. Ele contava a história do Brasil nas entrelinhas, enquanto distraía o leitor com uma trama ficcional em primeiro plano. Fora do Brasil, os gringos consideram Machadão, como consideramos Dostoiéviski por aqui, só pra terem uma ideia.

Temos outros grandes nomes, como Rachel de Queiroz, Emília Freitas, Clarice Lispector (que embora seja ucraniana, é praticamente brasileira KKKK), Graciliano Ramos, Lygia Fagundes Telles, Moacyr Scliar, Cora Coralina, Carlos Drummond de Andrade e tantos outros. 

Ou seja, para os livros clássicos: Sim, livros nacionais são tão bons quanto os estrangeiros. Estou chamando de clássicos aqueles autores já consagrados, e que "pra mim" e para leitores comuns já se tornaram clássicos. Não estou seguindo o rigor do estudo literário no qual vários deles seriam considerados contemporâneos, é bom avisar.




E quanto à literatura brasileira atual? 

Sim, tem muitos autores que já conquistaram seu lugar ao sol, que seguem uma linha literária "profissional", com editores e editoras que fazem um trabalho impecável. É assim com Conceição Evaristo, Aline Bei, Daniel Galera, Raphael Montes, cujos livros deixam nada a desejar aos que vêm de fora (alerta de ironia: "nem parecem brasileiros"). 

A grande questão, acredito, é com os autores independentes. E nessa área, bem, foi aqui que a minha experiência foi traumática e contraditória.


Publicar um livro está muito fácil!

A facilidade de publicar um livro hoje é absurda. Qualquer pessoa, às vezes basta ter um celular, pode escrever uma história e publicá-la. Seja no formato digital, em plataformas gratuitas como o Wattpad, distribuição gratuita, ou na Amazon, cobrando preços simbólicos, ou livro impresso. 

Qualquer um pode mandar seu livro para uma gráfica e imprimir o número de cópias que desejar. Existem vários serviços para auxiliar na preparação do material, revisão, preparação de texto, editoração e etc para uma publicação independente de editoras. E a pessoa sempre pode simplesmente mandar o arquivo feito por ela para a gráfica imprimir. 

Esse livre acesso à publicação é muito positivo, porque não dependemos mais de agentes literários, não fica na mão das grandes editoras decidir que história será publicada ou não. Não há controle. Assim, histórias maravilhosas, bem desenvolvidas, com trabalhos de revisão impecáveis podem chegar na nossa mão. 

Esse livre acesso à publicação, por outro lado, é muito negativo, porque qualquer texto pode ser publicado, revisado ou não, de qualidade ou não, com problemas de estrutura, linguagem, adequação, divulgação de ideias imbecis... Não há controle.

A verdade é que o cenário da literatura independente é uma loteria! Tem livros excelentes, e livros que são ruins. Às vezes, por falta de cuidado e assessoria, revisão crítica ou ortográfica, um olhar profissional para aquele texto. 


Agora começam as contradições... Observe!

Eu acredito que todo livro tem o seu público. Existe também o direito da pessoa realizar o sonho de publicar as suas ideias, de ter um livro publicado e etc. Tem histórias, com tramas e cenas desnecessárias, ou mal contadas. Histórias que ofendem, discriminam, perpetuam preconceitos e costumes arbitrários, como o machismo ou a homofobia, padrões sociais já ultrapassados como o culto à beleza... 

Nesses casos, será que a pessoa tem direito de publicar também? É válido colocar um livro no "mercado" que presta desserviço à sociedade? 

O mundo sem sensura é bem esquisito. No momento em que todos têm direito a se expressar, pode um misógino, racista, homofóbico, gordofóbico, pra resumir: um escroto, escrever e publicar um livro com o texto que quiser, sem filtro? Pode-se ler um escrito desses e aplaudir porque ele domina a escrita, ou porque é nosso amigo, justificando que não fez por querer, passar pano para esses "detalhes" sórdidos? Eu não consigo.




Para mim, é aí que a falta de controle do que vai ser publicado peca e muito. Todo escritor deveria:

  • Ter consciência de que sua obra pode ter problemas e submetê-la para revisões;
  • Enviar seu livro para leitores betas avaliarem a história e considerar as avaliações;
  • Aceitar críticas de grupos sensíveis, verificar se não há ofensa a grupos sociais;
  • Submeter seu texto para revisão ortográfica para garantir que o leitor vai ter acesso a um texto escrito em língua portuguesa correta, já que uma das funções da leitura é consolidar o conhecimento do idioma;
  • Pesquisar sobre os temas que escreve para não incluir informações imprecisas ou incorretas no seu livro;
  • Preocupar-se com a coerência e relevância do material que está oferecendo ao público.

Li um grande número de livros e contos escritos por autores independentes. E notei que poucos se preocupam com os itens citados antes. Vários deles eu sequer fiz resenha:

  1. Porque não sei da realidade da pessoa, porque resolveu publicar o livro daquela forma;
  2. Por acreditar que falta assessoria, às vezes pode ser falta de dinheiro, para entregar um trabalho melhor;
  3. Para não dar palco para um livro que acredito que não deve ser publicizado.


A minha experiência com livros de escritores independentes

Já tive a oportunidade de fazer leituras betas e nunca cobrei por isso. Justamente por acreditar que o escritor independente tem dificuldades e custos demais, sem retorno sobre o investimento. Assim como eu, vários leitores se dispõem a ler e avaliar livros de autores independentes. Então, basta que o escritor se preocupe com isso, para que procure apoio para lançar seu trabalho da melhor forma possível.

Voltando à questão da resenha, não gosto da ideia de divulgar um livro que não julgo bom apenas para "apoiar" o escritor. Não que eu seja a dona da verdade, e por isso não resenho. Porque, não tenho conhecimento técnico para afirmar que um trabalho é realmente péssimo e desnecessário. 

E, porque, caso fosse dona da verdade, vamos supor, eu publicaria a resenha com as críticas necessárias e isso serviria para quê? O livro já está publicado, não há mais o que fazer. Poderia apenas ofender e desencorajar um escritor que talvez só não tenha recebido o suporte necessário. 

Por outro lado, se eu posto a resenha, isso é publicidade. Então minha forma de contribuir para não passar essa ideia ruim adiante é não divulgando o trabalho. Em alguns casos, converso com o autor e explico o que ele pode melhorar para as próximas publicações. 



Isso quer dizer que os livros nacionais independentes não são tão bons quanto os livros estrangeiros? 

Não sei! Nunca li um independente de outros países para fazer tal comparação.

O que posso afirmar é que tem muito livro de escritor independente que merece um lugar na sua estante. Livros muito bem escritos, desenvolvidos, ideias originais. Tão bons quanto livros publicados por grandes editoras. O que só reforça o talento do escritor, já que poucos deles recebem a mesma assessoria que um escritor contratado numa editora grande. 

Você deve estar se perguntando então...


Como encontrar livros nacionais tão bons quanto estrangeiros?

A resposta para essa pergunta é um pouco mais fácil de encontrar! Praticamente todas as plataformas de venda de livros contam com um sistema de avaliação. Então, ler o que os leitores daquela obra falam sobre o livro ajuda muito a entender se ele é bom, se vale a pena dar uma chance.

Outra dica são as plataformas de registro de leitura como Skoob e Goodreads. Lá os leitores registram a progressão da leitura, avaliam com notas e resenhas. Você consegue ver quantas pessoas já leram, comparar as avaliações e tirar as suas próprias conclusões.

Produtores de conteúdo que leem nacionais e postam suas opiniões nas redes sociais também são boas referências para entender se um livro é bom ou não. Procure mais de uma resenha do mesmo livro, se tiver a oportunidade, troque uma ideia com a pessoa e tire as suas conclusões. 


As avaliações de livros são confiáveis? Nem sempre, mas... 

Quando estiver em plataformas como Amazon, Skoob e etc. Procure por avaliações que deram menos estrelas e compare os argumentos destas com o das pessoas que só falaram bem do livro. É uma forma interessante de ver se as avaliações positivas são confiáveis.

Ao buscar as opiniões de produtores de conteúdo, observe se a leitura foi em parceria (o que pode prejudicar o “julgamento”), se as demais resenhas desse produtor costumam ser sinceras. Quando a pessoa nunca fala mal de livro nenhum, mesmo que não tenha lido em parceria, é difícil saber se ela está sendo sincera. 

Mas, existem algumas pistas que ajudam a entender melhor a avaliação. Às vezes, a pessoa não reclama de nada, mas indica só os pontos positivos, motivos para ler o livro. Se olhar as demais resenhas dele, pode encontrar mais emoção nas resenhas de livros que ela realmente gostou. Assim você vai conseguir “catar” nas entrelinhas o que não foi dito do livro que ela não gostou.

Por isso é bom buscar mais de uma opinião sobre o mesmo livro. Busque por resenhas negativas para comparar com as impressões positivas que as pessoas fizeram e decidir (de acordo com as suas percepções e interesses) se o livro vale a pena, fazendo um contraponto entre as opiniões que encontrou.

Como você pode perceber, essas dicas servem para verificar se vale a pena dar uma chance a qualquer livro. Não apenas de brasileiros, independentes ou não. Serve também para considerar a leitura daquele livro que estourou no hype e você ficou com vontade de ler.


Os livros nacionais são tão bons quanto os estrangeiros?

Voltando à questão central deste post, tentei aqui trazer pontos para ajudar a entender todo o cenário, que não é tão simples. Temos sempre que avaliar o contexto: são livros independentes ou lançados por editoras? São editoras grandes ou pequenas? Tem editora que sequer revisa o texto do autor, simplesmente editora e publica. Cobram somente para isso. 

Então, um livro publicado por editoras grandes, que fazem o "serviço completo", e aqui incluo uma tradução decente dos escritores estrangeiros, não vai ter muito erro de digitação ou ortografia, coerência, continuidade da história. E isso independe se o livro é de autor nacional ou estrangeiro.

Quando queremos avaliar se o livro é bom ou ruim "para nós", é uma questão pessoal. Neste caso, para saber, só lendo, ou buscando saber com quem já leu, se aquela obra é interessante, se tem elementos bem desenvolvidos, se é o tipo de livro que gostamos.


E as publicações independentes?

Quanto aos livros independentes, bem... De novo! Tem que ler pra saber ou buscar se informar. 

Vale lembrar que escritores independentes normalmente têm perfis em redes sociais, onde falam dos seus livros com bastante frequência. Assim, você pode seguir a pessoa, ver se se identifica com as ideias dela, ver o que ela divulga sobre o livro, conhecer a sua escrita pelos posts. E isso pode ser bem interessante para definir se vale a pena ou não dar uma chance para o livro dela.

Há também "editoras independentes" ou grupos, associações, de escritores de um determinado gênero. Como a Editora Draco, Minna Editora, ABERST (Associação brasileira dos escritores de romance policial, suspense e terror) ou a iniciativa SAIFERS BR (Autores independentes de Ficção Científica Nacional) saiba mais aqui, dentre outras, que estabelecem requisitos para um texto receber o seu selo.

Essas características também ajudam a identificar obras que tiveram cuidados com a publicação, revisões e todas aquelas etapas para melhorar a obra e garantir que tecnicamente ele seja de qualidade.




Livros nacionais ou estrangeiros? Não importa...

A conclusão para essa conversa toda é: num mundo em que a publicação é livre, o ideal é buscar as ferramentas disponíveis em meio a essa liberdade, para tentar garimpar boas obras e se divertir com a leitura. Tenha a mente aberta para "dar chance" ao livro nacional, tanto quanto ao estrangeiro. Mas, não faça disso uma religião.

Quando adentrar a este mundo e pesquisar por aí, você vai notar uma tentativa de "controle" da sua leitura. Textos e vídeos querendo desmerecer leitores que só leem estrangeiros, julgando que são despatriados, sem consciência de classe e outras merdas. Vejo muito disso em perfis de escritores brasileiros, que se sentem injustiçados frente à concorrência da literatura mundial já "consagrada".


Somos livres para ler o que quisermos

Veja bem! Somos livres para ler o que quisermos, aquilo que nos faz bem, que precisamos, ou seja lá porque motivo você lê. É legal apoiar a leitura nacional? É. Mas isso não é regra ou obrigação, cada um lê o que quer. Não se sinta intimidado por esses discursos. 



Ler best-sellers é bom, ler autores como Octavia E Butler, Stephen King, Margaret Atwood, Isaac Asimov, Ray Bradbury, Fiódor Dostoiévski, Haruki Murakami, Agatha Christie, [adicione aqui o seu autor favorito], é bom demais! E faz parte inclusive da formação de um leitor, ler um pouco de tudo para ter uma noção geral da literatura, poder comparar as obras, autores, gêneros, se descobrir enquanto leitor, ou passar a vida lendo a mesma coisa. Cada um sabe de si!

Nota maldosa: vejo escritores que só leem estrangeiros, essas são as suas referências para os seus escritos, pregando que nós "reles mortais" devemos ler livros nacionais e apoiar a literatura brasileira. Querem o quê? Que a gente consuma o que eles digeriram das grandes obras? 

Enfim... a hipocrisia!


E pra finalizar esse texto "monstro", apenas leia! 

Eu acredito que ler abre a mente, ajuda a esclarecer as ideias, é aprendizado, é intelectualmente enriquecedor, mas, acima de tudo, é diversão. Ler tem que ser prazeroso.


Fim!

=P

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