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sexta-feira, fevereiro 14, 2025

Resenha | A vida mentirosa dos adultos por Elena Ferrante

 “A vida mentirosa dos adultos” foi minha primeira leitura de Elena Ferrante. Como acompanho lançamentos e livros que ficam famosos na internet, via o nome de Elena Ferrante com bastante frequência, mas nunca tive muita curiosidade para conhecer o seu trabalho, não sei porquê. E no fim, esse livro foi minha primeira leitura de 2025.


Gosto de começar o ano com uma leitura mais significativa, histórias mais complexas e reflexivas, e achei que essa seria uma boa ideia. Adiantando um pouco minha opinião sobre “A vida mentirosa dos adultos”, foi, mas não pelos motivos que eu imaginava.

Neste texto quero falar um pouco mais do que a minha opinião pela obra em si, abordando:

  • sinopse;
  • quem é Elena Ferrante;
  • motivos para ler “A vida mentirosa dos adultos”;
  • minhas impressões, a resenha propriamente dita;

E se escolhi esses tópicos e ordem das informações é por que a resenha vai fazer mais sentido com o contexto.


Sinopse de “A vida mentirosa dos adultos”

As mudanças no rosto de Giovanna anunciam o início da adolescência e não passam despercebidas em casa. Dois anos antes de abandonar a família e o confortável apartamento no centro de Nápoles, Andrea não se dá conta do que sentencia quando sussurra para a esposa que a filha é muito feia. Essa feiura estética, mas que também indica uma possível falha de caráter, recai sobre Giovanna como uma herança indesejável de Vittoria, a irmã há muito renegada por Andrea. Aos doze anos, a menina vê um rosto no espelho e, embora não compreenda a fundo o peso daquela comparação, sente que algo está irremediavelmente à beira de um abismo.

Peguei apenas esse trecho da sinopse publicada pela Intrínseca https://intrinseca.com.br/livro/a-vida-mentirosa-dos-adultos/ porque acredito que ela já dê uma ideia do que acontece na história, mas se você quiser ler por completo, clique no nome da editora, que coloquei o link, ou veja a sinopse na Amazon clicando aqui


Quem é Elena Ferrante?

"Elena Ferrante é o pseudônimo de uma escritora italiana, cuja identidade é mantida em segredo." Eu confesso que fiquei surpresa quando li essa frase na bio publicada na Wikipedia. Essa pessoa tem oito romances publicados, sendo o primeiro deles 'A Amiga Genial', que inclusive virou série. Elena Ferrante foi eleita pela revista Time uma das 100 pessoas mais influentes do mundo em 2016, mesmo sem saberem quem ela é? Fiquei me perguntando, e se for um homem? Por que "as pessoas" têm tanta certeza de que é uma mulher? Considerando o conteúdo de "A vida mentirosa dos adultos" fiquei, sim, duvidando dessa biografia especulada para a pessoa que escreve os romances.

Apesar de parecer um grande mistério, a identidade da autora já foi desvendada, o que só descobrir depois de ler. Se quiser saber mais sobre isso, leia a reportagem do El Pais

Enfim, achei essa questão bastante curiosa e essas informações se juntaram ao contexto para as minhas impressões sobre a leitura. Se não dá para separar obra de autor, como faz neste caso de um pseudônimo?


Motivos para ler “A vida mentirosa dos adultos” de Elena Ferrante

Estava procurando livros abordando a bisexualidade, porque sou dessas, que explorasse a descoberta e a vivência dessas pessoas. Obviamente me interessava a vivência de mulheres, de preferência adultas. Algo que está em falta nessa “área” diga-se de passagem. Vemos muitos livros com abordagem LGBTQIAP+, mas normalmente com personagens adolescentes, já com uma revelação e descoberta mais atualizada com os novos tempos. 

Sem querer desmerecer as questões dos mais jovens, noto que pouco se fala de pessoas da minha geração que, acredito, tenham questões e problemas diferentes, com a descoberta tardia, com dramas mais específicos. E era sobre isso que queria ler, conhecer, entender e etc.

“A vida mentirosa dos adultos”, de Elena Ferrante, surgiu nas minhas pesquisas e era isso que esperava encontrar nessa leitura. 


Resenha de “A vida mentirosa dos adultos”

Agora que vocês já entenderam o contexto do livro e as expectativas que eu fui criando antes e durante a leitura, vamos as minhas impressões!

Sobre a leitura: é bastante fluida, gostei muito do estilo de Ferrante escrever. É o tipo de escrita que nos envolve na história, é simples sem ser simplista. Entendi por que os livros são famosos e a notoriedade que a autora ganhou com as suas publicações. Foi bom de ler. 

No início a história parece que vai ser um romance de cotidiano, e isso me deixou um pouco confusa, porque não tinha certeza se era esse tipo de livro. Conforme acompanhava o “amadurecimento” de Giovanna, identifiquei-me com muito do que ela estava passando. O que mostra um domínio muito grande da pessoa escritora sobre o seu texto. As imagens são bem realistas e muito vivas para o leitor.

Mais para o meio do livro, eu fiquei ainda mais confusa sobre onde essa história iria dar, porque muitas questões são levantadas e vão sendo abandonadas para dar foco em outras e as ideias meio que se perdem ao longo da narrativa. O final é meio sem sentido, quando terminei fiquei pensando, pensando… sem conseguir chegar a uma conclusão. Dias se passaram e ainda não sabia ao certo sobre o que eu tinha lido. E foi então que comecei a criar algumas teorias a respeito da obra. 

Primeiro, a questão da sexualidade, que alguns disseram ser explorada, mas que é minimamente citada. Por quê? Eu especulo que as situações em que as personagens são colocadas expõem a sexualidade para quem se identifica com elas. O desgosto com homens, o sentimento de não se encaixar no convívio social, de não atender às expectativas sociais de gênero. É sutil? Acho que depende do olhar e da vivência do leitor.

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A confusão de temas e cenários envolvendo as personagens… Talvez Elena Ferrante tenha nos colocado na mente de uma adolescente, confusa, passando por todos aqueles problemas sem saber priorizar o que importa, sem saber como lidar com tudo aquilo? É uma saída possível, porque a história é contada do ponto de vista dessa personagem. Quem já foi adolescente sabe que essa não é a melhor das fases, que a nossa mente fica um tanto perturbada, ainda mais quando temos, de fato, algo visto como “errado”. É interessante pensar dessa forma, e isso me tomou algumas horas de reflexão.

Logo, se preciso definir o que achei do livro de maneira objetiva, digo que gostei. É um bom livro, que nos faz pensar, tem a complexidade que eu esperava, mas ele foi bom por motivos diferentes do que imaginava. E ser surpreendida por uma leitura, num mundo em que todas as histórias parecem mais do mesmo, certamente é uma boa forma de começar o ano de uma leitora. 🙂

Seja como for, se você chegou até aqui e está considerando a leitura de “A vida mentirosa dos adultos” vá em frente. Leia, depois me conte o que achou. Caso tenha chegado aqui porque leu e não sabe se entendeu, espero que tenha gostado das minhas impressões. Aproveite e deixe as suas aí nos comentários. Vou adorar saber a sua opinião. 

No mais, pesquisando sobre o livro para complementar o post, descobri que em 2023 a Netflix lançou uma série baseada no romance. Vou deixar o trailer aqui pra vocês. Já vi algumas alterações foram feitas nas personagens, e gostei. Acho que fazem mais sentido.


Trailer da série “A vida mentirosa dos adultos”:



segunda-feira, junho 24, 2024

Fundação de Asimov: Qual a ordem certa de leitura?

Quem resolver ler Isaac Asimov geralmente inicia pela Fundação, mais especificamente à Trilogia da Fundação, que foi originalmente o primeiro lançamento dessa saga.


Sinopse abreviada da Fundação

Nela foram reunidos contos diversos desse universo contando a história do "Império Galáctico" que, após a sua ascensão, começa a mostrar sinais de decadência. É quando inicia um esforço para atenuar as consequências dessa derrocada para que o mais breve possível se restabeleça ainda mais forte.


Por que não começar pela Trilogia da Fundação?

O principal motivo é a reorganização da obra, feita pelo próprio autor. Quase no final da sua vida, Isaac Asimov olhou para os seus escritos e percebeu a possibilidade de juntar o universo dos Robôs à Fundação, ampliando a saga, aprofundando o desenvolvimento desde o início.

Como os livros da Trilogia são contos reunidos, existe um intervalo de tempo gigantesco entre eles e muitas informações ficam faltando, como por exemplo, a história do seu personagem principal (depois da galáxia), Hari Seldon. Ele pensou e implementou todos os planos, é citado em todos os livros, é o “fundador da fundação”, e pouco se sabe sobre a vida dele.

Seguindo a ordem que apresento aqui, a mesma sugerida pelo autor, a experiência de leitura é melhor, mais completa, e emocionante se você começou essa jornada lá em “O fim da eternidade”.


Se estiver perdido sobre isso, leia meu outro post: Guia de leitura para ler Isaac Asimov 


A ordem certa para ler a Fundação de Isaac Asimov

Ordem cronológica segundo os acontecimentos narrados ao longo da Saga. Para melhor compreensão, sempre sugiro iniciar a sequência indicada no post que citei antes. Começando pelo "O fim da eternidade", passando pela Saga dos Robôs. A trilogia do Império Galáctico pode ser lida depois da Fundação, sem problemas.

Enfim, vamos à ordem...

1 - Prelúdio à Fundação (1988) 

Este é o primeiro livro que fala da Fundação. É onde conhecemos Trantor em detalhes, temos o panorama geral do Império, conhecemos Hari Seldon. É nele que acompahamos o surgimento da ideia da "Psico História" e os primeiros passos do plano para colocá-la em prática.


2 - Origens da Fundação (1993) 

O livro descreve eventos pós "prelúdio" anteriores à Trilogia da Fundação. Logo, essa é a melhor posição para quem pretende ler na ordem cronológica. Foi o último escrito pelo autor e ele tem uma carga emocional muito intensa.

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3, 4 e 5 - A Trilogia da Fundação 




3 - Fundação (1951)

Primeiro livro da Trilogia da Fundação. É interessante não começar por aqui. Pode ser confuso ou insuficiente para quem gosta de detalhes, muita gente odeia quando começa por ele. Eu não arriscaria.

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4 - Fundação e Império (1952)

O segundo livro da trilogia é o melhor deles, empolga muito, entrega bastante ação, criatividade, personagens intrigantes. Embora seja excelente, ainda é superficial sobre o que "sustenta" a fundação.


5 - Segunda Fundação (1953)

O terceiro livro da série pega um pouco do que teve de bom no livro anterior. Falta a referência do que realmente importa e que está nos livros anteriores a trilogia. Reafirmo: a chance de alguém odiar Fundação começando pela trilogia é imensa. 


Tem várias edições da Trilogia da Fundação. Eu tenho a mais antiga da Editora Aleph, a que está na foto anterior. Depois de reler, deu vontade de comprar a edição especial de capadura. É linda demais!


6 - Limites da Fundação (1982)

Quem começou lendo lá em "O fim da eternidade", passou pela saga dos robôs, depois trilogia do Império Galáctico, prequels e trilogia da Fundação, chega em "Limites da Fundação" meio cansado, e a sensação que se tem é que Asimov sabia disso. Esse livro deixa qualquer leitora emocionada. Ele inicia uma jornada que revisita todos os acontecimentos, relembra personagens e é um carinho em quem se propôs a ler tudo que o Divo Asimov escreveu. 


7 - Fundação e a Terra (1983)

O último livro dessa saga, assim como "Limites..." é um reencontro com o que já foi lido até aqui, mas vai além, trazendo uma reflexão sobre tudo. Isaac Asimov tinha uma visão muito boa sobre o futuro e sobre a humanidade, e nesse livro ele nos apresenta possibilidades, caminhos, resoluções. É lindo, triste, nostalgico. E tem um PLUS maravilhoso que só vai valer a pena e ser entendido, se você ler na ordem indicada pelo autor, listada neste post

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Minha experiência Lendo a Fundação

Você vai encontrar diversas ordens de leitura, algumas pela publicação, que até pode fazer algum sentido, se quiser ver como o autor foi reinventando esse universo, e umas ordem malucas indo e voltando em livros de forma aparentemente aleatória.

A minha experiência foi a seguinte: comecei pela trilogia, enquanto ainda estava lendo a série dos robôs. Fiz a maior confusão e me arrependi disso quando li os outros livros da Fundação. Recentemente eu fiz a releitura completa dessa saga, seguindo a ordem certa e foi maravilhoso. A leitura flui melhor, percebe-se as nuances e os presentes deixados pelo autor ao recriar esse universo. Por isso virei uma defensora dessa ordem de leitura.

Se você for teimoso e quiser começar com a Fundação e depois ir para "O fim da eternidade" e série dos Robôs, pode funcionar. Sugiro que pelo menos siga essa ordem aqui descrita, mas DE NOVO, acredite no mestre, leita na ordem indicada por ele.

Veja aqui todos os livros da Fundação de Asimov, disponíveis na Amazon


terça-feira, junho 04, 2024

Resenha | O Diário de Anne Frank

"O Diário de Anne Frank" é um dos livros mais vendidos na Amazon e tem inúmeras edições. Os leitores parecem nunca se cansar dele. Você sabe por quê?


Resenha de "O Diário de Anne Frank" 

"O Diário de Anne Frank" traz o relato profundamente comovente e significativo da vida de uma jovem judia durante a Segunda Guerra Mundial. Escrito por Anne Frank enquanto ela e sua família se escondiam dos na$istas em Amsterdã, este diário oferece uma visão íntima e impactante das dificuldades enfrentadas durante aquele período sombrio.

Desde o início, o leitor é atraído pela escrita clara e sincera de Anne. Suas entradas no diário capturam o cotidiano no anexo secreto, onde a família Frank, juntamente com mais quatro pessoas, viveu escondida por mais de dois anos. Anne descreve com detalhes vívidos o medo constante da descoberta, as tensões do confinamento e os pequenos momentos de alegria que iluminavam suas vidas.

O que se destaca no diário é a maturidade e a profundidade dos pensamentos de Anne, especialmente considerando sua idade. Ela reflete sobre temas complexos como a natureza humana, a injustiça e a esperança. Seus escritos mostram uma jovem cheia de vida e curiosidade, que sonhava em ser escritora e fazer a diferença no mundo.

Um dos aspectos mais emocionantes do livro é a esperança inabalável de Anne. Mesmo enfrentando circunstâncias extremamente difíceis, ela manteve a fé na bondade das pessoas e sonhava com um futuro melhor. Esta esperança ressoante é um dos pontos mais poderosos do diário, que muitos interpretam como uma lição sobre resiliência e otimismo em tempos de adversidade.

A descoberta e a prisão dos habitantes do anexo secreto são descritas com uma precisão que deixa o leitor com um nó na garganta. O final trágico da obra, sublinha a brutalidade do Holocausto e a perda irreparável de tantas vidas jovens e promissoras.

"O Diário de Anne Frank" não é apenas um documento histórico, mas também uma obra literária de grande valor. Casa de Anne Frank em Amsterdã, hoje um museu, serve como um lembrete duradouro da sua história e da importância de lembrar o passado para não repetir os mesmos erros no futuro. Um clichê, é verdade, mas ainda muito necessário nos dias de hoje.

Em resumo, "O Diário de Anne Frank" é uma leitura essencial que combina um relato pessoal íntimo com uma poderosa mensagem sobre a resiliência do espírito humano. É um testemunho atemporal da coragem de uma jovem garota e da necessidade de lutar contra a intolerância e a injustiça em todas as suas formas.



Contexto histórico e um pouco mais sobre Anne Frank

Anne Frank nasceu em 12 de junho de 1929, em Frankfurt, Alemanha. Sua família mudou-se para Amsterdã, na Holanda, em 1933 para escapar da perseguição nazista. Em 1942, a família Frank foi forçada a se esconder devido à intensificação da perseguição aos judeus.

Anne começou a escrever seu diário pouco antes de se esconder. Ela o recebeu como presente de aniversário em 1942 e nomeou-o "Kitty". No diário, Anne relatou a vida no esconderijo, suas reflexões pessoais, seus medos, esperanças e os desafios de viver em confinamento. Ela também expressou suas aspirações de ser escritora.

Após a guerra, Otto Frank retornou a Amsterdã e encontrou o diário de Anne preservado por Miep Gies, uma das pessoas que ajudaram a família a se esconder. Otto decidiu publicar o diário de sua filha para compartilhar sua história com o mundo. O livro foi publicado pela primeira vez em 1947, sob o título "Het Achterhuis" (O Anexo Secreto). Desde então, foi traduzido para muitos idiomas e é considerado um dos relatos mais importantes e comoventes do Holocausto.


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sexta-feira, outubro 27, 2023

Resenha: Prelúdio à Fundação de Isaac Asimov

Prelúdio à Fundação” é o primeiro livro da saga Fundação, para quem optar por ler essa série pela ordem cronológica. Ele não é o primeiro livro escrito neste universo. Asimov começou com a trilogia da Fundação, e depois escreveu prequels e sequels (ou seja: livros que contam histórias antes e depois da trilogia).



A história da Fundação é bem interessante. A trilogia principal, que é a mais conhecida, premiada e etc, iniciou como contos publicados numa revista de Ficção Científica dos Estados Unidos. O sucesso desses contos foi tão grande, que o agente do autor resolveu reuní-los nesses três livros: Fundação, Fundação e Império e A Segunda Fundação, os quais formam a trilogia.


Quem chega desavisado na obra do Asimov, geralmente lê a trilogia primeiro. As reações comuns são: estranheza, porque parecem histórias desconectadas a princípio, sente-se falta de um background, muitos amam e outros detestam. Talvez pela controvérsia, pela oportunidade de ganhar mais, ou porque o universo é rico demais e os personagens poderiam estar atormentando o autor… Ele então escreveu esses livros que completam e aprofundam a história contada nos contos da trilogia.


E eu, que tinha começado a ler errado essa saga, e não tinha gostado muito, achei fantástico e adorável da parte dele ter escrito esses outros livros. Isso porque “Prelúdio à Fundação” não só aprofunda e complementa esse universo, como traz uma história muito mais interessante. Asimov está mais maduro e experiente quando o escreve, o que resultou num trabalho belíssimo.


O autor aproveita esses novos capítulos, inclusive, para conectar a saga dos robôs à da Fundação. E esse foi o segundo motivo pelo qual a decisão foi muito acertada. Essa conexão entre as histórias foi feita de forma magistral, o que enriquece ainda mais tanto uma quanto outra saga.


Prelúdio à Fundação tem, portanto, o papel de conectar as sagas e aprofundar o momento político do império em que Hari Seldon, o grande salvador das histórias na trilogia, seja apresentado de forma mais apropriada. Conhecemos toda a sua história, desde a chegada a Trantor, como ele chegou aos poderosos que deram crédito e espaço para que ele construísse o seu plano para salvar o império.


Obviamente não posso dar detalhes sobre como isso foi feito, porque daria spoilers muito indesejados. O que posso dizer a vocês é: leia Isaac Asimov na ordem indicada neste outro post: Guia de leitura para ler Isaac Asimov.



Eu já li do jeito errado, estou relendo na ordem certa e faz muita diferença.

Outra dica, se me permitem, não dê intervalos muito longos entre um livro e outro, principalmente se você for esquecida como eu. Fica muito melhor se a gente tem toda a história prévia fresquinha na memória.


Asimov é perfeito e sempre nos ajuda a lembrar, dando o contexto, relembrando personagens, mas mesmo assim, o texto é tão sutil, cheio de detalhes, que vai ser bem melhor ler quase que direto todos os livros. É uma jornada longa, mas muito prazerosa. Ler essa saga é ter contato com o que de melhor já se escreveu nos tempos áureos da ficção científica.





quinta-feira, outubro 26, 2023

Resenha: Robôs e Império de Isaac Asimov

“Robô e Império”, de Isaac Asimov, é o quarto livro da saga dos robôs, e mais ou menos o sexto, para quem segue a ordem de leitura desse universo criado pelo autor, que inicia lá em “O fim da eternidade”. Se você procura pela ordem para começar a ler Asimov, tenho um post que explica tudo direitinho: Guia de leitura para ler Isaac Asimov



Quando finalizei “Os robôs da Alvorada”, terceiro livro dessa série, fiquei desesperada para ler o livro seguinte. Isso porque Asimov cria uma série de eventos que vai ser desencadeada no livro a seguir e eu precisava de respostas. Na época não existia essa edição da Aleph e eu tive que ler uma versão bem questionável, mas que serviu ao seu propósito.


Acontece que o autor entrega tudo que prometeu ao longo da série, mostrando toda a evolução dos robôs e criando a ligação para dar início às histórias do império que é desenvolvida lá em Fundação


Em “Robôs e império” tem ação, política, reflexões sobre a humanidade e uma trama muito bem elaborada para nos fazer relembrar todos os eventos desde a aparição de Daneel, lá em “As cavernas de aço” e preparar o leitor para o que virá, com a formação do Império Galáctico.


É brilhante o modo como o autor consegue revisar e unir dois universos que parecem tão diversos. Na saga dos robôs a humanidade está engatinhando na exploração espacial, espalhada em alguns poucos planetas. Já em Fundação há um grande império espalhado pela galáxia inteira, sem robôs e qualquer contato com a Terra. Essas premissas fazem parecer que as histórias não têm como convergir, e o modo como Asimov as une chega a me emocionar. Sim, eu sou muito fã dos livros do autor (fazer o quê?). 




Como não posso dar detalhes da história, por ser a conclusão de uma saga e sujeita a spoilers indesejados, vou comentar aqui também sobre a releitura que fiz recentemente.



Robôs e império: vale a releitura?


Há quem pense que é perda de tempo reler um livro. Pois, se isso for verdade (o que não acredito), a regra não se aplica à saga dos robôs de Asimov. Na releitura de "Os robôs e o império" pude rever detalhes desse universo que adoro. 


Lembro da emoção que foi ler "Os robôs da alvorada" e como me joguei nesse livro pra saber o que aconteceria depois. Foi uma leitura rápida, ensandecida. 😅 Da segunda vez, degustando cada capítulo, pude admirar ainda mais a genialidade de Isaac Asimov ao criar essa série, e mais ainda, em organizá-la dentro do universo fazendo a ponte para a Fundação. 


Enfim, mais uma história emocionante, que a gente termina feliz e triste, amando os robôs, temendo o futuro da humanidade e encucada demais com a evolução dos robôs.


Ah, e claro, mais uma vez, Gladia brilha muito, representando bem uma heroína, uma das poucas, mas uma grandiosa personagem, do Bom Doutor.


Que venha a trilogia do Império Galáctico! 🚀




quinta-feira, setembro 21, 2023

Audiolivros grátis em português? Agora é possível!

 Parece mentira, mas a Amazon está oferecendo três meses de audiolivros grátis com muitos livros em português com a chegada da plataforma de audiolivros Audible.



O Audible é uma ferramenta para ouvir livros já muito conhecida em outros países e por estudantes e falantes da língua inglesa no Brasil. O catálogo agora conta com vários livros em português e essa promoção da Amazon com três meses gratuitos para ler quantos livros quiser é muito boa. É uma oportunidade para experimentar audiolivros completos, para quem ainda não se aventurou pelo mundo dos audiobooks, e para quem já vê vantagens nesse formato, vai poder ler muito audiolivro de graça. 

A promoção de três meses grátis é para quem assina o Amazon Prime e, após esse período, a assinatura fica R$19,90 por mês. O catálogo conta com mais de 100.000 títulos em vários idiomas. 

A assinatura dá acesso a mais de 100 mil audiolivros, permite baixar os audiolivros para ouvir mesmo offline e dá 30% de descontos para compra de audiolivros fora desse catálogo da assinatura. Clique aqui para ver o catálogo de assinante

Pelo que ouvi de alguns leitores, está com poucos títulos em português, mas a Amazon avisa na página do serviço que essa é uma versão beta, então é provável que em breve tenhamos mais opções, como aconteceu no Kindle Unlimited - o serviço de ebooks da Amazon.

Para aqueles que já aderiram ao audiobook me parece uma boa opção, pra não precisar procurar audiolivros no spotify, youtube ou procurar audiolivros grátis para download. Com o Audible, a pessoa pode ouvir onde estiver e continuar o livro de onde parou, como acontece nos ebooks no Kindle.


Para saber mais sobre o serviço e assinar clique aqui


quarta-feira, outubro 05, 2022

Resenha | Licor de dente de leão, de Ray Bradbury

 O livro "O vinho da alegria", também conhecido como “Licor de dente de leão” é o meu livro favorito de Ray Bradbury, por enquanto. Ainda tenho que conhecer outras obras dele, mas este… Ganhou meu coração.



Sinopse de “Licor de dente de leão”

Para a maioria das pessoas pode ser óbvio, mas será que elas já se perguntaram se estão realmente vivas? Essa questão é o ponto de partida do memorável romance de Ray Bradbury e o momento que marcou o início do verão de 1928 na vida do protagonista Douglas Spaulding, de doze anos. Na cidadezinha de Green Town, no interior dos Estados Unidos, alguns personagens extraordinários se unem nesse verão tão especial na vida de Douglas: o inventor que redescobriu os prazeres da vida ao construir a Máquina da Felicidade; o jovem repórter que se apaixonou por uma idosa de 95 anos; o contador de histórias que conseguiu falar com o passado telefonando para um lugar distante.


Resenha de “Licor de dente de leão”, de Ray Bradbury

Sempre que via pessoas falando do seu livro favorito da vida ficava me perguntando “como conseguem escolher?”. Ao terminar “Licor de dente de leão”, fiquei perplexa. Fechei o livro e fiquei olhando a paisagem feia que tenho da janela do meu quarto. 

Então fiquei pensando porque parava tanto para olhar por aquela janela? O vento balançando as folhas das árvores e os passarinhos passando de um lado para o outro me fizeram lembrar que a gente tende a guardar a paisagem que quer. A minha vista tem seu lado feio, mas também tem os bonitos.

E não é assim que a vida é? Não teria chegado a essa conclusão sem a ajuda de Ray e seu "Licor de dente de leão". Pelo menos não nesse momento.

O que Bradbury fez foi uma máquina do tempo, em forma de livro, abastecida com as palavras certas. Nele revivi meu passado por meio da infância daqueles meninos correndo pelos campos de uma cidadezinha qualquer no Illinois. As lembranças que ele suscita são as mais doces, o lado bom da infância. 


Ele me fez pensar na adulta que sou hoje, ao conversar com uma criança, e ver nela as minhas histórias. Assim como os adultos do livro, olham para as crianças. A estória traz adultos de diferentes personalidades, cada um encontrando o seu jeito de lidar com a transformação causada pelo tempo. 


"É privilégio dos velhos dar a impressão de saberem de tudo. Mas é uma incenação, uma máscara, como todas as outras incenações e máscaras."


Ray também nos leva para o futuro e nos faz pensar sobre a velhice. Tão temida, tão terrível, acabando com a nossa jovialidade, beleza e disposição. Será? Nunca vi um autor lidando com esta temática de forma tão acolhedora, sincera e bonita. Dá um quentinho no coração só de lembrar, e aquela vontade de ler tudo de novo.


"A primeira coisa que você aprende na vida é que é um tolo. A última coisa que você aprende na vida é que é o mesmo tolo."


É uma leitura transformadora. Saí diferente dela e sei que não vou conseguir descrever tudo que senti com essa pseudo resenha. Deixo aqui o convite, conheçam, leiam, Ray Bradbury, Licor de dente de leão. É demais!

E pra encerrar, um dos meus quotes favoritos, porque parece que Ray me conheceu e eu nem sabia:

"Algumas pessoas ficam tristes incrivelente jovens. Por nenhum motivo, ao que parece, parecem quase nascer assim. Elas se machucam mais fácil, se cansam mais rápido, choram mais prontamente, se lembram por mais tempo e, como eu digo, ficam mais tristes mais jovens que qualquer outra pessoa no mundo."


Outra dica: esse livro foi lançado há muitos anos com o título "O vinho da alegria" e ainda é possível encontrá-los nos sebos com um preço muito bom!

Mas, se você prefere comprar o livro na edição nova, na Amazon, o link está aí, basta clicar na imagem. 

 

=P

terça-feira, setembro 27, 2022

Resenha | O último homem, de Mary Shelley

 "O último homem", de Mary Shelley não deve ser lido como "Frankenstein", é uma obra completamente diferente. Embora título e sinopse indiquem uma distopia, é um livro clássico, um romance de costumes, antes de qualquer rótulo.



Sinto falta de dois pontos para chamar “O último homem” de distopia 


1- A causa (doença) ter uma linha alternativa. Quem tomou a decisão que levou a humanidade para aquele caminho distópico? Porque é uma doença e a deterioração é natural pela falta de conhecimento da época, como foi com a peste. O desenvolvimento da estória se dá como em qualquer outro romance realista da época.

 

2- O outro ponto é a falta de crítica social que normalmente acompanha essa decisão que leva a sociedade ou o mundo para o caminho errado. Talvez se ela usasse a guerra como o problema que alastrou a doença e/ou que impediu uma busca pela cura, ficaria mais próximo do gênero distopia como o conhecemos hoje.


Então “não é uma distopia”, mas pode ser considerado um rascunho de um novo gênero, já que ela olha para o futuro e não o imagina como uma utopia, como acontece em “O mundo resplandecente” de Margaret Cavendish.


Se defendo logo de início que não se tratada de um distopia é somente para afastar aqueles leitores que por ventura imaginem que a estória tem qualquer relação com as distopias contemporâneas.





Minhas impressões sobre “O último homem”


O texto classudo de Mary Shelley foi muito bem traduzido por Jana Bianchi, apesar disso, por se passar num futuro distante, 2097, porém observado/criado a partir de um passado tão distante de nós, gera uma dificuldade de conexão com a história. Acredito que por isso a uma resenha que li tenha o título de "pior livro". Não é.


Trata-se de um livro de texto antigo que precisa ser situado no seu tempo. A partir do momento em que se observa esse detalhe tudo fica mais fácil. 


Acompanhamos a história de vida de Lionel Verney, que teve a sua infância, e a de sua irmã, prejudicada com a morte do pai. Este tinha um vínculo com o rei que abandonou a família à sua própria sorte. Os irmãos acabam órfãos e Verney desenvolve um ódio à família real. 


Esse é o ponto de partida e muita água passa por debaixo dessa ponte até o final do romance, que prega algumas ideias sobre o amor, a amizade e o sentido da vida. 





É um texto gostoso de ler. O protagonista conta a sua história de vida, dos seus familiares e amigos. Tem os dramas da época com romances românticos, costumes da vida aristocrata, decadência política, fim da monarquia, valores e etc. Tem momentos mais monótonos como todo romance longo e antigo, mas os bons momentos prevalecem.


Indicado para quem gosta de ler e não para quem só quer saber o fim da história, como todo bom romance clássico.



=P


sexta-feira, julho 29, 2022

Resenha | Semente originária, de Octavia E Butler

"Semente originária", de Octavia E Butler, surpreende pelo realismo dentro do mundo fantástico. E eu já explico que doideira é essa!



Um pouco sobre o perfil de Octavia E Butler

Toda ficção nos permite interpretações num processo subjetivo, certo? Na obra de Butler como um todo ela constrói universos ambíguos, que mostram a história de diferentes ângulos, o que nos faz analisar melhor aquela situação. Seus personagens são multifacetados e conseguimos amá-los e odiá-los, compreendê-los e enxergarmos a nossa realidade por meio das suas ações.

Octavia constroi camadas de significados, as quais vamos desvendando em leituras atentas e nas releituras. 


Sobre a série O Padronista

"Semente originária" foi publicado pela Editora Morro Branco como o primeiro livro da série O padronista. A série Patternist (Patternmaster ou Seed to Harvest) é um grupo de romances escrito pela autora entre 1976 e 1984. A ordem de escrita e publicação foi essa:

  1. Patternmaster (1976)
  2. Mind of My Mind (1977) - Elos da mente (2022) 
  3. Survivor (1978) -  A Neófita (2024)
  4. Wild Seed (1980) - Semente originária (2021) 
  5. Clay's Ark (1984) - A arca de Clay (2023)

Então porque a Morro resolveu começar a publicar pelo quarto livro e depois voltou para o segundo, que aleatoriedade é essa? Encontrei a resposta no site Stringfixer. Parece que Octavia E Butler, depois de publicar os cinco livros, repensou as publicações, renegou o “Survivor” e os reorganizou na ordem dos acontecimentos dos eventos nas histórias. Então a ordem atualizada ficou assim:

  1. Wild Seed (1980) - Semente originária (2021) 
  2. Mind of My Mind (1977) - Elos da mente (2022) 
  3. Clay's Ark (1984) - A Arca de Clay (2023)
  4. Survivor (1978) - A Neófita (2024)
  5. Patternmaster (1976)

A série “O padronista” é considerado o responsável por tornar Octavia conhecida como “A dama da ficção científica”. O que é muito curioso, já que “Semente originária” HOJE não seria considerada sci-fi. Eu o vejo como uma fantasia que flerta com o realismo, porque os personagens têm poderes inexplicáveis. O Padronista faz cruzamentos, esperando que a genética atue produzindo espécimes especiais, mas a origem dele, assim como a da semente, é mágica, de origem divina, um mistério. Como pode ser ficção científica?

Seja como for, a musa Octavia E Butler fez um trabalho incrível, digno de deixar de lado os rótulos, ler e se divertir.



Resenha de Semente originária

Em "Semente originária", Octavia E Butler colocou camada sobre camada numa história que incomoda por nos permitir traçar um paralelo com as diferentes realidades:

— O branco invadindo o continente africano com propósitos escusos;

—  A ambiguidade/falha de caráter do ser humano que escraviza outros da espécie;

— A mulher na sociedade machista;

— A mulher negra na sociedade (machista), ela sendo um autora negra escrevendo essa história é outro perspectiva interessante de se analisar;

— O povo africano sendo levado do seu continente de origem;

— A vida num lugar que não é o seu;

— As escolhas que fazemos;

— Princípios versus dignidade versus sobrevivência;

Devo estar esquecendo de muitos outros pontos críticos que me fizeram parar a leitura e pensar sobre o que a autora estava tentando nos mostrar.

A verdade é que deve ter muito mais camadas que a minha condição de privilégio, ainda que mulher, sis, branca, com ensino superior, etc, não me deixa ver por completo.

E mesmo com as limitações esperadas, foi uma leitura nervosa!




A autora provoca reflexões sobre a condição da mulher nessa sociedade, a dificuldade da mulher negra chantageada e afastada do seu povo, as escolhas e concessões que a sua personagem precisa fazer... Que sequer são escolhas, já que não há liberdade. Aquele personagem perverso e tão necessário num mundo de escassez, as amarras que ele cria para prender a mulher. 

É tudo tão angustiantes e bem construído, que me fez ficar ainda mais fã de Octavia E Butler, se é que isso é possível! 

A história é um retrato da nossa realidade, uma pintura triste, que expõe a nossa sociedade a ponto de nos deixar envergonhados. Apesar disso, reafirma a força das mulheres. Só outra mulher pra entender que não está fácil viver nesse mundo.

Esse livro nos faz perceber que estamos fazendo muito, ainda que precisemos avançar mais. É triste, mas deixa um fio de esperança.


Mais um favorito de 2022. 😊





Octavia sendo p-e-r-f-e-i-t-a outra vez.

O segundo livro da série O Padronista é "Elos da mente", vai ser a minha próxima leitura, o terceiro "A arca de Clay" está na fila para ser lido, e já saiu o quarto livro da série "A Neófita".

Obrigada a Editora Morro Branco por apostar na Octavia E Butler e seguir trazendo esses livros incríveis para o Brasil! 

quarta-feira, junho 15, 2022

Resenha | O coração é o último a morrer, de Margaret Atwood

Sabe o que é? Compreender Margaret às vezes requer mais do que empatia.

Terminada a leitura de “O coração é o último a morrer”, de Margaret Atwood, fiquei me perguntando “qual o ponto” que ela queria tocar. Porque sempre tem esse “porém” em seus escritos. Eles são feitos para refletirmos sobre alguma coisa. E para chegar aonde quero, vou abandonar “O coração é o último a morrer” e dar uma voltinha pelo "O Conto da aia".


"O coração é o último a morrer", de Margaret Atwood, foi lançado em 2015 nos EUA, publicado no Brasil pela Editora Rocco, em 2022.


Sempre que vejo algum comentário sobre o “O conto da Aia”, um dos livros mais famosos da autora, eu sempre paro para ler/ouvir. É um livro com camadas e mais camadas de significados e sempre capto algum detalhe a mais. Mesmo quando a pessoa diz não ter gostado da leitura. Aliás, às vezes, esse tipo de resenha é o que mais revela a que o livro se propõe.


Margaret Atwood e o feminismo

Margaret Atwood é uma mulher interessada incluir o patriarcado como parte da crítica social (afinal metade da população sofre com isso). Seus livros abordam questões feministas nos são caras, como o nosso direito à liberdade, por exemplo. Uma caminhada difícil vem sendo trilhada há muitos séculos e pouco foi conquistado. O que ela tenta nos mostrar é como essas poucas conquistas são frágeis, sim, mas que a situação pode ser ainda pior, porque não foram vitórias de fato, recebemos algumas migalhas. 

Uma vez, conversando com a Rafa, do @VegasBookBlog, ela fez um comentário sobre as histórias de Margaret Atwood que mudou a minha percepção sobre as obras da autora. Ela disse algo assim: "Margaret escreve sobre coisas que estão acontecendo”. Ou seja, tudo que se lê nos livros dela está acontecendo com alguém em algum lugar do mundo. 

Ao pensas sobre isso… Lembra de “O conto da Aia”, e de "Os Testamentos"? Dá um nervoso pensar que todo aquele universo hostil existe, não dá? Se você disse que não, provavelmente não é mulher, não tem noção do que a maioria delas passam, mesmo em 2022, é tão privilegiada que sente que isso não é com você ou pouco se importa com elas (é misógino que chama né?). 


Por isso acho que se identificar, ou perceber o que Margaret quer dizer, vai além de sentir empatia. Às vezes, a mensagem não é pra quem está lendo, por um motivo ou por outro. E se você não gostou, não entendeu ou achou inverossímil, vale fazer umas pesquisas no google, conversar com outras pessoas, e rever os seus conceitos. E só então, retornar à resenha de "O coração é o último a morrer".


Sinopse e impressões sobre "O Coração é o último a morrer"

É quando volto para “O Coração é o último a morrer”, uma história aparentemente banal. Um casal, Charmaine e Stan, vive nos Estados Unidos, o país está arrasado por uma crise econômica, num cenário de desemprego que desencadeia, para a classe trabalhadora (é claro!), a perda de moradia, da segurança e da dignidade. 

Esse casal então busca no Projeto Positron, uma oferta de emprego, moradia e segurança em troca da sua "liberdade" (qual liberdade?). Eles precisam assinar um termo aceitando viver para sempre num condomínio fechado, onde estarão isolados do mundo. Para quem estava vivendo dentro de um carro, sem banho, lutando para conquistar a próxima refeição, a proposta parece absurda, porque não aceitariam?, e eles ficam tentando entender o que tem por trás disso. Qual é a pegadinha? Mas, mesmo assim, concordam com os termos e se mudam para lá.

A vida é realmente agradável em Consilience, o tal condomínio do projeto, e tudo parece perfeito. Em pouco tempo eles se adaptam e seus problemas passam a ser a cor das cortinas e outras futilidades. Eles chegam a esquecer a vida que tiveram do lado de fora, das pessoas que deixaram para trás e, claro, temem perder as regalias conquistadas.

E se você aí que está lendo essa resenha está ligado no que acontece no mundo, já sabe onde está o plot, qual o problema e porque esse livro está classificado como uma “Distopia”. É um futuro muito próximo, embora tenham robôs inteligentes. Mas, será que se trata de um futuro?



O marcador do livro traz a pergunta “Quanto vale a liberdade?” e a resposta não é fácil, mas, ao ler esse livro e pensar sobre essa questão levando em consideração o mundo a nossa volta… Algumas reflexões são provocadas. Que liberdade?

Pesquisa no Google “população de rua nos estados unidos”, no Brasil, em São Paulo, na tua cidade, caso não seja paulista… Estima-se que a população em  situação de rua em Porto Alegre seja superior a 3 mil. 

O desemprego no Brasil já atinge mais de 11 milhões de pessoas, sem levar em consideração o subemprego e as pessoas que desistiram de procurar trabalho. 75 milhões de brasileiros estão vivendo com meio salário mínimo, ou menos, e buscando doações para não passar fome. Pessoas que estão a ponto de perderem suas moradias e irem viver nas ruas.

Volta e meia há denúncias dessas pessoas alegando violência por parte do poder público para retirá-las da nossa vista, da vista de quem mora em bairros “nobres”. Enquanto escrevo este post, tem uma ocupação em Palhoça - SC, sendo despejada, saiba mais sobre a ocupação Marigella aqui

Ou seja, os protagonistas de “O coração é o último a morrer” não só existem, como estão entre nós, circulando pelas ruas, só o que falta é um burguês safado achar um jeito ainda melhor de lucrar com essa mão de obra abundante, tirando essa "gente suja" das ruas e assim, agradando a todos. 


Percebem a ironia presente nessa obra? 

Falar em liberdade no sistema capitalista onde a maior parte das pessoas é classe trabalhadora e não tem liberdade alguma. Lançar uma “distopia” que relata fatos de um futuro próximo que, na verdade, já faz parte do presente? É com esse olhar que se deve “ler” esse livro e pensar sobre tudo que acontece na história, cada detalhe dela.

O que somos nós, dentro das nossas casas, nesse inverno reclamando do frio? O que somos nós, classe trabalhadora, se não escravos deste sistema que nos aprisiona, que nos faz vender nossa força de trabalho por qualquer centavo, que nos faz aceitar todas as suas contradições e torcer todos os dias para não se tornar aquele ser estranho lá da rua, o desempregado, o pobre coitado? Como é que vamos julgar Charmaine e Stan, ou não ironizar essa ideia de Margaret Atwood de que temos escolha? Quem somos nós?

Mas a musa não para por aí. Ela também aproveita a sua “pseudo-distopia” para nos falar sobre relacionamentos, machismo, masculinidade tóxica e ainda nos dá, para nós mulheres, uma personagem FODA! Que faz o macho de trouxa, que domina quem acha que está dominando, cria uma situação extremamente desconfortável para o macho. Eu só percebi porque sou mulher e vejo isso acontecer TODO SANTO DIA. Sabe? Margaret Atwood é perfeita.

Na contra-capa há alguns comentários sobre a "moral" da história estar relacionada a "pessoas boas presas, pessoas más, livres", mas, pra mim, essa história vai muito além disso.


Para concluir...

A leitura foi boa, o impacto foi forte e ainda estou refletindo sobre o final. O qual parece simplório demais e um pouco bobo à primeira vista. Mas, Margaret guarda para as últimas linhas o plot final, para nos incomodar. Nem final sórdido, nem agri-doce. Volta e lê tudo de novo, acho que você ainda não entendeu! É o que ela parece nos dizer… Perfeita, até a última linha!

Enfim… Se nada do que disse aqui fez sentido para você, se ainda acha que não vale a pena ler a musa, "sorte a sua"! Leia mesmo assim, como uma distopia futurista, com uma sociedade doente, robôs, Elvis e Merlins.



segunda-feira, junho 06, 2022

Resenha | Alamut, de Vladimir Bartol

 Sabe o que é? Você só sabe que “assassino” é assassino, por causa de Alamut. Na verdade não é bem isso, mas calma que eu explico, ou tento explicar!




Resenha | Alamut, de Vladimir Bartol

“Alamut”, de Vladimir Bartol, é a versão do autor para a história de Hasan ibn Sabbah, conhecido como “o velho da montanha”. Esse cara criou a “ordem dos assassinos” no século XI. Uma divisão de elite, e suicida, do exército que ele forma para proteger os Ismaelitas e claro, ampliar a influência dessa “divisão” religiosa entre os muçulmanos xiitas.

Eu poderia parar essa resenha por aqui e isso já seria motivo de sobra pra alguém ler o livro. Essa “ordem dos assassinos” foi o que deu origem ao que hoje conhecemos como "assassinos", a origem da palavra veio do haxxīxīn 'consumidor de haxixe' < persa hassassin 'designação da seita do Norte do Irã que, nas Cruzadas, consumia a erva, antes de lutar'. 

E aqui a gente entra numa outra questão importante, que é o fato de essa galera ter sido formada ali em meio às perturbações e conflitos gerados pelas cruzadas. No livro acompanhamos apenas a ascensão dos Ismaelitas por meio do “velho” que se dizia indicado por Alá, o qual teria lhe entregado as chaves do paraíso.

Com esse “poder”, ele é capaz de decidir quem levar (homens vivos ou mortos) para os jardins paradisíacos e as suas Huris. O que significava acesso a meninas virgens dispostas a tudo, comida e bebida liberada.

Essa era a moeda de troca utilizada por Hasan ibn Sabbah com sua ordem de assassinos. Eles eram os mais puros da seita e por isso eram proibidos de casar ou ter relações afetivas. Isso viria ao cumprirem as suas missões, quando seriam levados ao paraíso. 

A história de Vladimir Bartol procura mostrar como o cara arquitetou todo o seu plano, desde a tomada de Alamute (uma fortaleza estratégica), conquistou seguidores com a fanfic sobre o paraíso e ampliou a sua área de influência onde hoje é o Irã, abalando as relações de poder daquela região. Parte dessas conquistas nos chega nos dias atuais com Ra's Al Ghul, do Batman (que embora não seja sobre o velho da montanha, tem muitas semelhanças: um homem poderoso na montanha com uma liga de assassinos) e “Assassin’s Creed Origins”, que foi buscar nessa história a referência para o jogo.



Sobre a experiência de leitura de "Alamut"


A Editora Morro Branco fez algo para o que muitos puristas poderiam torcer o nariz: ela modernizou o texto. Então, se você viu lá na capa que o livro é de 1939, retratando uma história que se passa no Irã do século XI, e pensou “Não é pra mim”, talvez essa informação te faça mudar de ideia. A leitura é muito fluida, a ponto até de esquecermos onde e quando aqueles fatos ocorreram.

Aqui eu deixo a minha crítica. O autor não ambienta muito bem a história, e essa atualização, tirou a história do contexto pra mim. Eu preferiria um texto mais classudo, diferença nas vozes dos personagens que têm origens diferentes e etc. Mas, fica mais fácil de ler e não foi uma experiência ruim, longe disso.

Em determinado momento da história, um professor começa a aula e a aluna mais nova fica se segurando para não rir. A gente fica sem entender até que pela conversa com as colegas, deduz-se que ele fala esquisito. Esse é o tipo de marca que não deveria ter se perdido, acredito eu.

Há ainda uma variação estranha na narrativa, às vezes parece realismo, absurdo, gritante, em outras parece que estamos lendo um conto de fadas. As motivações do “velho da montanha” são expressadas, para nós de 2022, de um modo meio infantil em algumas passagens. Lembra do pica-pau e seu delírio com dinheiro, mulheres, iates? Para mim, foi algo assim. 

Acho que faltou desenvolver melhor a formação dos assassinos, assim como problematizar a história paralela que se passa nos jardins. Outra questão que me incomodou um pouco foi a pressa em terminar a história. No início, os personagens e as situações nos são apresentados aos poucos, com uma riqueza de detalhes quase desnecessária. Depois, quando precisamos entender e queremos ver mais de como as coisas estão se desenrolando, ele apenas as cita, sendo bem superficial. 



E sim, precisamos problematizar

Alamut é uma história do tempo das cruzadas, que se passa no universo muçulmano e, mesmo tendo sido escrito tempos depois, em 1939, é claro que está cheio de passagens machistas. Incômodas, mas muito fáceis de entender. Apesar disso, senti falta de um texto de apoio, para que um jovem ao ler a obra, tenha uma dimensão desse e de outros problemas que o livro traz por ser datado.

Embora tenha as minhas ressalvas, recomendo muito esse livro, pois:

  • Ele nos tira do lugar comum, eurocentrista ou estadunidense.
  • Traz uma visão muito interessante sobre os muçulmanos, o que pode ajudar a desmistificar alguns estereótipos e preconceitos.
  • Tem uma crítica implícita sobre como pessoas numa posição de liderança costumam agir e pensar.
  • Faz uma crítica explícita ao cinismo de líderes que usam a fé alheia para manipular pessoas.


Acompanhe meu diário de leitura nos destaques do Instagram @blogsabeoque


Vale lembrar que Vladimir Bartol era branco, europeu, formado na Sorbonne, e tem, portanto, a visão de um cara privilegiado sobre essa história. Apesar disso, o período em que o livro foi escrito indica a crítica aos regimes totalitaristas e fascistas que estavam surgindo na época dele. 

Temos aí mais um ponto interessante para ler essa obra: o mundo estava uma loucura, e ele “preocupado” em contar uma história de outro tempo, em que tudo deu errado (para muita gente, leia o livro e entenda), por menosprezar esse “tipo” de liderança. Ele foi cirúrgico nesse paralelismo e entender esse contexto é importante para dar o devido valor à obra.

É por essa e por outras que recomendo a leitura desse que deveria estar lado a lado com clássicos como 1984, de George Orwell, por exemplo.


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